O Mito da Exposição Solar para Aumentar a Testosterona
De acordo com especialistas consultados, não existem estudos clínicos que comprovem que a exposição direta da bolsa escrotal ao sol aumente a testosterona de maneira segura ou consistente. Essa ideia tem circulado principalmente em redes sociais, onde grupos promovem estratégias de ‘otimização hormonal’ como um método natural para elevar os níveis desse hormônio.
O urologista Gustavo Marquesine Paul, que coordena o Departamento de Andrologia, Reprodução e Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia, explica que a prática de expor a região genital ao sol não é respaldada por recomendações médicas. A confusão pode advir de investigações que mostram uma associação entre o tempo passado ao ar livre e níveis mais altos de testosterona em certas populações. Contudo, essa relação não comprova que a exposição direta ao sol na região genital seja benéfica.
Bernardo Belchior Hermanson, urologista e andrologista membro da Sociedade Brasileira de Urologia, acrescenta que a tendência pode ter surgido da interpretação incorreta de dois conceitos diferentes. Embora se saiba que níveis adequados de vitamina D, que são sintetizados pela pele devido à exposição solar, possam estar associados a melhores níveis de testosterona, isso não implica que mais sol na região genital resulte em maior produção hormonal. ‘Não há qualquer evidência científica que sustente essa prática específica’, afirma o especialista.
Os Riscos da Exposição Direta
Mesmo que o objetivo seja manter os níveis de vitamina D adequados, a recomendação é expor áreas convencionais do corpo, como braços e pernas, ao sol por períodos seguros, ou, em caso de necessidade, usar suplementação indicada por um médico. Vale ressaltar que expor a bolsa escrotal ao sol não só não é fundamentado cientificamente, mas também aumenta o risco de queimaduras em uma das regiões mais sensíveis do corpo.
Como o Corpo Produz Testosterona
A testosterona é gerada principalmente nos testículos, mais especificamente nas células de Leydig. O processo de produção hormonal inicia-se no cérebro, onde o hipotálamo envia um sinal à hipófise, uma glândula situada na base do cérebro. Esta, por sua vez, libera o hormônio luteinizante (LH) na corrente sanguínea. O LH então viaja até os testículos e estimula as células de Leydig a produzirem testosterona. Portanto, a produção desse hormônio é um sistema hormonal complexo, que não depende de estímulos solares diretos.
Consequências da Exposição ao Sol
Além da falta de benefícios comprovados, os riscos dessa prática são variados. Os testículos são posicionados fora da cavidade abdominal precisamente para manter uma temperatura inferior à temperatura corporal — cerca de 4 °C mais baixa — que é essencial para a produção adequada de espermatozoides. A exposição ao sol pode elevar a temperatura local, gerando estresse oxidativo, comprometendo a qualidade dos espermatozoides e reduzindo a fertilidade.
Outro risco é a possibilidade de queimaduras solares. A pele da bolsa escrotal é fina e delicada, não sendo adequada para exposição direta à radiação ultravioleta. Assim como em outras partes do corpo, a exposição cumulativa ao sol pode aumentar as chances de desenvolver câncer de pele ao longo da vida.
Alternativas para Aumentar a Testosterona
Quando há sintomas que indicam baixa testosterona, como diminuição da libido, cansaço persistente, perda de massa muscular e alterações de humor, o recomendado é buscar avaliação médica. Os especialistas indicam que as práticas mais eficazes para manter níveis hormonais adequados incluem: sono de qualidade, atividade física regular, especialmente treinos de força, controle do peso e moderação no consumo de álcool, além do tratamento de doenças associadas.
A reposição hormonal é indicada somente quando há sintomas claros associados a níveis baixos confirmados em pelo menos dois exames laboratoriais e deve ser realizada sob supervisão médica. Paul alerta que buscar soluções simplistas, como a exposição solar, pode atrasar o diagnóstico de condições como o hipogonadismo, que é quando o organismo não produz testosterona em níveis adequados.

