Projeção de Hotel de Luxo em Patrimônio Histórico
A Fazenda Pau D’Alho, um importante marco da história brasileira que recebeu Dom Pedro I em 1822, pode ser transformada em um hotel de luxo na cidade de São José do Barreiro, interior de São Paulo. No entanto, a proposta tem gerado resistência entre os moradores, que contestam o tamanho e os impactos do projeto, que prevê uma área construída de aproximadamente 8,3 mil metros quadrados, englobando tanto estruturas históricas quanto novas construções. O local é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, e a nova edificação está planejada para ser construída fora da área de proteção.
Atualmente, o projeto se encontra em fase de consulta pública, que se estende até 6 de fevereiro. Este período é crucial para que a população possa expressar suas opiniões antes que o governo decida sobre a licitação. O Ministério do Turismo, responsável pela iniciativa, anunciou a prorrogação do prazo no fim de dezembro, e a concessão desse empreendimento deve ter uma duração de 45 anos.
História e Importância Cultural
A Fazenda Pau D’Alho, erguida em 1818, foi inicialmente concebida para a produção de café e se tornou um ponto de passagem para Dom Pedro I em sua jornada rumo a São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência do Brasil. Essa rica história e o contexto cultural do local suscitam debates sobre a adequação da proposta de um hotel de luxo em um local com profundas raízes históricas.
Junior Meireles, advogado e presidente do Instituto Pau D’Alho, argumenta que o projeto é incompatível com a realidade da cidade, que conta com apenas 3.853 habitantes. Segundo ele, a proposta pode acarretar efeitos negativos sobre a estrutura histórica e o meio ambiente local. “Estamos lidando com uma região que depende do turismo, mas a infraestrutura atual não suporta um fluxo de 45 mil turistas, como proposto no estudo de viabilidade. Nossa cidade tem apenas um hotel com 18 unidades e uma taxa de ocupação abaixo de 40%”, destacou Meireles, enfatizando a falta de serviços essenciais, como saúde e abastecimento de água, para atender a um aumento tão significativo de visitantes.
Conflito Cultural e Histórico
Os moradores ainda levantam preocupações sobre a adequação do projeto ao contexto histórico da fazenda, que está profundamente marcada pela escravidão. “Transformar este espaço em um hotel é um desprezo à luta histórica do povo negro na construção do país”, afirma Meireles. Sônia Dietrich Paes Leme, artista e moradora da região, acrescenta que o local deve ser preservado como um espaço de visitação cultural e educacional, e não como um destino de turismo de massa. “A proposta de um hotel de luxo e a cobrança de ingresso para entrar na fazenda nos preocupam muito”, afirmou Sônia, que também defende que a fazenda deve permanecer acessível à população e voltada para atividades que valorizem a história local.
Aspectos Financeiros do Projeto
O plano de negócios para a concessão da Fazenda Pau D’Alho prevê um investimento total de R$ 63,1 milhões, com cerca de R$ 10,9 milhões alocados para a restauração das edificações históricas. A maior parte do investimento, aproximadamente R$ 52,2 milhões, será direcionada à construção do hotel, que ficará a pelo menos 15 metros dos muros tombados, com a conexão ao conjunto histórico por meio de uma passarela.
De acordo com o Ministério do Turismo, a diária média no hotel está estimada em R$ 1.638,63, com uma taxa de ocupação projetada de 64%. O projeto também planeja diferentes fontes de receita, incluindo aluguel de áreas comerciais, taxas de estacionamento e atividades recreativas.
A construção do hotel e a concessão em si visam à preservação do patrimônio, com a garantia de que as áreas de uso cultural e circulação permaneçam abertas ao público. Contudo, a antiga senzala será destinada a atividades educativas, visando à valorização da memória da escravidão.

