Bactéria Wolbachia: Uma Nova Esperança
A luta contra as arboviroses, como dengue, Zika e chikungunya, ganha uma nova ferramenta com a utilização da bactéria Wolbachia. Recentemente, países afetados por esses vírus, transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti, têm investido na liberação dessa bactéria como estratégia para diminuir a incidência dessas doenças. A Wolbachia é um microrganismo intracelular que se propaga de mãe para filhotes e é encontrado em cerca de 70% das espécies de insetos, incluindo cupins e moscas, mas até pouco tempo, não se conhecia sua presença em Aedes aegypti.
Após um processo de transinfecção, pesquisadores descobriram que os mosquitos infectados pela Wolbachia apresentavam uma capacidade reduzida de transmitir dengue, Zika e chikungunya. Desde então, tanto machos quanto fêmeas de Aedes aegypti portadores dessa bactéria têm sido soltos em áreas com surtos conhecidos, visando substituir a população natural, que é altamente transmissora de vírus, por uma mais resistente.
Experiências ao Redor do Mundo
Vários países tropicais, como Austrália, Colômbia, Indonésia e Vietnã, já implementaram a soltura de Aedes aegypti infectados com Wolbachia em áreas urbanas. No Brasil, que historicamente registra o maior número de casos de dengue, os esforços começaram em 2014 nas cidades do Rio de Janeiro e Niterói, estendendo-se posteriormente a locais como Campo Grande, Petrolina, Belo Horizonte e Foz do Iguaçu. Cidades como Brasília, Luziânia e Blumenau também estão em fase de implementação do programa.
A iniciativa no Brasil é fruto de uma parceria entre a Wolbito do Brasil, que é vinculada ao IBMP (Instituto de Biologia Molecular do Paraná) e à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), e a WMP (World Mosquito Program). O resultado dessa estratégia tem sido animador: em regiões como a Austrália e a Colômbia, a incidência de dengue caiu até 96%. No Brasil, as solturas em Niterói resultaram em uma redução de 69% nos casos de dengue, 56% de chikungunya e 37% de Zika. Em Campo Grande, a taxa de redução de dengue foi de 63%. No entanto, no Rio de Janeiro, os resultados foram menos expressivos, com uma diminuição de 38% nos casos de dengue.
Desafios para a Implementação
Ainda assim, os desafios são muitos. A eficácia da Wolbachia na redução da transmissão de arbovírus pode depender de fatores locais, como clima, a população nativa de Aedes aegypti e o uso de inseticidas. A sobrevivência das fêmeas liberadas é crucial, pois elas precisam se reproduzir e transmitir a bactéria para a próxima geração. Além disso, a produção em massa de Aedes aegypti com Wolbachia requer a construção de biofábricas, o que pode ser um obstáculo significativo.
Os dados coletados nas solturas iniciais no Rio de Janeiro mostram que a prevalência da Wolbachia caiu de 65% para 10%, uma vez que os mosquitos criados em laboratório eram suscetíveis a inseticidas comuns. Essa situação levou à necessidade de cruzar fêmeas de Aedes aegypti com Wolbachia com machos locais, resultando em uma linhagem geneticamente compatível com a população nativa, capaz de sobreviver a inseticidas.
A Diversidade Genética como Aliada
Estudos anteriores indicam que existem pelo menos cinco grupos genéticos de Aedes aegypti no Brasil, cada um com variações que os tornam adaptados a diferentes ambientes. É fundamental analisar como essas populações respondem à infecção por Wolbachia, pois a resistência à infecção viral conferida pela bactéria pode variar entre elas. Além disso, a introdução da Wolbachia pode afetar a biologia geral do mosquito, impactando sua sobrevivência e reprodução.
No contexto atual, a diversidade genética entre as populações de Aedes aegypti deve ser preservada para aumentar as chances de sucesso da estratégia de controle através da Wolbachia. Essa abordagem pode ajudar a mitigar um dos maiores problemas de saúde pública do Brasil, onde milhares de pessoas são afetadas anualmente por essas doenças.
Este estudo contou com o apoio de agências de fomento como a Faperj (Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). O conhecimento acumulado até aqui deve guiar futuras iniciativas nessa luta contra as arboviroses.

