Estratégias em Meio à Controvérsia
O cenário eleitoral se torna cada vez mais acirrado com a análise de posts críticos direcionados ao presidente Lula. De acordo com um levantamento feito por integrantes do governo, a situação é considerada uma ação orquestrada por adversários, visando desgastar a imagem do chefe do Executivo em um momento crucial para a campanha. O documento, que obteve acesso O GLOBO, já circula entre líderes do Partido dos Trabalhadores (PT) e parlamentares apoiadores, e tem sua origem atribuída ao próprio PT.
Quando questionados, tanto a Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) quanto representantes do partido não se manifestaram. No entanto, governistas expressam que esses movimentos nas redes sociais indicam o que os apoiadores de Flávio Bolsonaro podem vir a fazer durante a disputa eleitoral, e, portanto, a necessidade de um monitoramento mais rigoroso sobre tais ações.
Outro fator que preocupa a administração atual é a possível repercussão das informações relacionadas à quebra dos sigilos bancário e fiscal de Fábio Luís Lula da Silva, mais conhecido como Lulinha, filho do presidente. A CPI do INSS, mantida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), representa uma derrota significativa para o Planalto. Além disso, uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), também autorizou a quebra dos sigilos.
Esse mapeamento já em posse da gestão petista servirá para embasar discussões estratégicas sobre como reagir a essas ofensivas, segundo afirmam governistas. Diante do receio de um aumento na disseminação de críticas, o PT intensificou o diálogo com representantes das grandes plataformas digitais para discutir a questão. Um membro da Executiva do partido destacou que esses monitoramentos são recorrentes e fundamentais na formulação de campanhas e conteúdos que consideram pertinentes. Desde o ano passado, o PT também tem promovido oficinas para aprimorar a atuação de seus militantes nas redes sociais, uma medida que deve ser intensificada conforme a eleição se aproxima.
Monitoramento das Redes e Impulsionamento de Críticas
O levantamento revela que 54 figuras públicas, incluindo deputados, senadores e influenciadores, têm investido para promover postagens críticas em suas redes sociais. Essa ação gerou críticas de diversos setores da sociedade, especialmente por parte de grupos neoconservadores, levando a descontentamentos dentro do segmento evangélico. Além disso, surgiram questionamentos sobre a utilização de recursos federais para financiar todas as escolas de samba, incluindo aquelas que fazem homenagem ao petista.
O governo acredita que esse movimento foi coordenado para desgastar a imagem do presidente, e não oriundo de uma ação espontânea. O aumento do impulso de publicações críticas é uma preocupação constante no Palácio do Planalto, especialmente em um ano eleitoral. O PT tem feito sugestões ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para atualizar as regras que regulam as campanhas, questionando inclusive a norma que permite críticas ao desempenho de administrações públicas sem que isso seja caracterizado como propaganda eleitoral negativa.
Nesta quarta-feira, a Corte divulgou a versão final das resoluções, retirando a proposta que havia gerado controvérsia. Desde a reformulação na cúpula do PT, no final do último ano, a nova liderança busca restabelecer o diálogo com as grandes plataformas digitais, visando entender como elas podem atuar durante o período eleitoral. Com a percepção de que essas empresas estão mais próximas da direita, o PT tem tentado manter uma linha de comunicação aberta, além de solicitar mudanças nas práticas das plataformas.
Na semana passada, representantes do partido se reuniram com integrantes da Meta para discutir a questão do impulsionamento. Um novo encontro está agendado para os próximos dias, conforme relatórios.
Reações e Críticas ao Desfile de Samba
Apesar das críticas que surgiram após o desfile de samba, a oposição argumenta que o Planalto ofereceu munição para ataques em um momento de falta de pauta que pudesse desgastar a imagem do presidente. Na sequência do evento, governistas passaram a discutir formas de reagir a essa ofensiva nas redes sociais, em resposta à repercussão negativa. O ministro da Secom, Sidônio Palmeira, minimizou as críticas, afirmando que as queixas eram uma “falsa polêmica” e classificando-as como um “oportunismo eleitoral” que não requereria medidas por parte do governo.
— É necessário investigar para identificar os responsáveis. Isso configura crime eleitoral — destacou o ministro.
Nesta terça-feira, o PT protocolou representações no TSE solicitando que a Meta suspenda o impulsionamento de certas publicações que sejam consideradas negativas. O partido demanda que, em caráter liminar, os envolvidos sejam proibidos de realizar novos impulsionamentos de conteúdos com teor semelhante aos mencionados.
A documentação revela que a maioria dos investimentos para impulsionamento gira em torno de R$ 100, com raras exceções acima de R$ 700. O levantamento apresenta uma tabela detalhada, que inclui dados sobre autores das publicações, valores investidos, duração dos anúncios e alcance.
Entre os mencionados, estão o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e deputados federais como Filipe Barros (PL-PR) e Paulinho da Força (Solidariedade-SP), além de Renato Bolsonaro, irmão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O GLOBO avaliou as informações do documento em conjunto com dados disponíveis na biblioteca de anúncios da Meta. Entre os perfis mais influentes que investiram no impulsionamento, destaca-se Barros, que se prepara para candidatar ao Senado e possui 1,3 milhão de seguidores no Facebook e 775 mil no Instagram. Ele impulsionou um vídeo com uma sátira das promessas não cumpridas de Lula. O deputado, ao ser questionado, alegou que não abordou o desfile, mas se referiu a uma “marchinha de carnaval contra o PT”, afirmando que utilizou recursos pessoais para a postagem.
Entre os que alcançaram maior visibilidade, estão o prefeito Ricardo Nunes e o deputado Paulinho da Força, que geraram 375 mil e 187 mil impressões, respectivamente. O primeiro compartilhou um vídeo onde o governador Tarcísio de Freitas critica o desfile, enquanto Paulinho apresentou uma marchinha carnavalesca criada por inteligência artificial como uma forma de criticar Lula. Ele negou qualquer ação coordenada nas redes e garantiu que os impulsionamentos foram feitos com recursos próprios.
Renato Bolsonaro, por sua vez, também se posicionou criticamente, anunciando que protocolou representações na Justiça, pautando sua indignação sobre o desfile e cobrando uma análise das ações similares às que foram tomadas contra seu irmão, Jair Bolsonaro, em um evento anterior.
Neste contexto, o levantamento ainda inclui quatro influenciadores que realizaram a promoção de publicações, sem investimentos diretos, além de perfis dedicados à fofoca que divulgaram críticas. Integrantes do governo, em conversas reservadas, reconhecem que a presença de autoridades no desfile foi uma decisão equivocada, considerando que não trouxe benefícios políticos. Um aliado de Lula observa que a situação poderia ter sido evitada, pois o desfile acabou por agravar a já delicada relação do presidente com o segmento evangélico.

