Análise do Cenário Econômico Global de Petróleo
Wellington Abreu, especialista e consultor na área de Petróleo e Gás, oferece uma visão detalhada sobre a atual crise econômica e suas implicações no mercado mundial de petróleo. A recente instabilidade na Venezuela, exacerbada por ações dos Estados Unidos, levanta preocupações e expectativas sobre o futuro do comércio de combustíveis. O país, que detém a maior reserva de petróleo do mundo, vive um momento delicado. Em entrevista, Abreu também aborda a situação dos preços dos combustíveis no Brasil e a ameaça da cartelização nos postos, uma prática considerada criminosa.
Como a Crise Venezuelana Pode Afetar o Mercado de Petróleo?
Os efeitos da geopolítica do petróleo tendem a se manifestar de maneira mais clara no médio e longo prazo. A retomada significativa da produção venezuelana será condicionada por fatores como as condições operacionais adequadas, investimentos necessários e um ambiente regulatório estável. Atualmente, a Venezuela produz cerca de 800 mil barris por dia. Em um cenário favorável, esse número poderia chegar a 2 milhões de barris em um a dois anos, mas isso exige tempo e recursos.
Impactos Imediatos na Região
Preocupa-me especialmente o curto prazo. Para o primeiro trimestre de 2026, já podemos observar indícios de receitas reduzidas, motivadas por dois fatores principais: a persistência do preço do Brent em níveis baixos e as flutuações na produção, que podem ser afetadas por incidentes operacionais na Bacia de Campos. Um exemplo recente é a paralisação da plataforma P-52 devido a um vazamento de gás em outubro de 2025, que resultou em uma interrupção significativa na produção.
Pressão nos Preços com Retorno da Venezuela
O retorno da Venezuela ao mercado pode, sim, pressionar os preços. Se o país acrescentar cerca de 1 milhão de barris por dia à sua produção, aumentando de 800 mil para algo entre 1,8 e 2 milhões de barris, isso corresponderá a aproximadamente 1% da demanda global. A Agência Internacional de Energia estima uma demanda de 104,4 milhões de barris por dia em 2026. Embora 1% possa parecer insignificante, em um mercado que já enfrenta superoferta, esses incrementos mínimos são suficientes para pressionar o preço do Brent e acentuar uma tendência de baixa.
Reflexos da Queda do Brent no Brasil
Uma eventual queda no preço do Brent poderia, sim, proporcionar um alívio nos preços dos combustíveis para o consumidor final. Contudo, isso também tende a impactar negativamente as receitas provenientes de royalties e participações especiais que são direcionadas a municípios, estados e à União. No contexto brasileiro, é crucial observar a interdependência entre o preço do Brent, o câmbio e a capacidade de produção, ao invés de focar em eventos isolados.
Projeções Internacionais para 2026
De acordo com a EIA, órgão que compila estatísticas do Departamento de Energia dos Estados Unidos, o preço do barril de petróleo deve ficar em torno de US$ 55 em 2026. Esse cenário de excessiva oferta em relação à demanda sugere que, para preservar a saúde fiscal dos municípios, as estratégias precisam ser fundamentadas em dados técnicos e precauções.
Medidas Necessárias Frente ao Cenário Atual
É vital que os gestores públicos revisem o fluxo de caixa e atualizem as projeções de repasses da ANP para o primeiro trimestre de 2026, levando em conta um câmbio médio conservador entre R$ 5,35 e R$ 5,45. É igualmente importante evitar a criação de novas despesas fixas, como cargos ou reajustes, baseadas em arrecadações temporárias. Além disso, um monitoramento rigoroso dos investimentos das empresas de petróleo na Bacia de Campos é essencial; qualquer migração de capital para outros projetos pode ser prejudicial. Por fim, ações para diversificar a economia e reduzir a dependência do petróleo são imprescindíveis.
Avaliação do Momento Econômico
É um momento que exige considerável responsabilidade fiscal. A janela de oportunidades financeiras está se fechando de forma mais rápida do que se esperava. A manutenção do equilíbrio orçamentário exigirá que os gestores sejam cautelosos e não comprometam receitas que, com o tempo, tendem a cair. O foco deve ser em dados concretos e na adaptação às mudanças geopolíticas que poderão ocorrer no futuro.
Cartelização nos Postos de Combustíveis
A formação de cartéis em postos de combustíveis, frequentemente referida como “carteirização”, é um crime significativo contra a ordem econômica, pois elimina a concorrência e prejudica o consumidor. Em 2026, as autoridades brasileiras seguirão diretrizes rigorosas para coibir essa prática.
Legislação e Jurisprudência Relacionadas
Esse tipo de crime é abordado pela Lei nº 8.137/1990, que trata dos crimes contra a ordem econômica, assim como pela Lei nº 12.529/2011, a Lei Antitruste, que regula a repressão administrativa dessas infrações. A jurisprudência estabelece que a mera coincidência de preços não é suficiente para condenar; é preciso comprovar ajustes de conduta, por meio de evidências diretas ou indiretas.
Punições Previstas para os Infratores
As sanções ocorrem tanto na esfera criminal quanto na administrativa. Na esfera criminal, as penas variam de dois a cinco anos de reclusão, além de multas para os administradores e sócios. Em termos administrativos, o CADE pode aplicar multas que vão de 0,1% a 20% do faturamento bruto da empresa, podendo ainda cassar a inscrição estadual e impedir a participação em licitações públicas.
Como Consumidores Podem Denunciar Suspeitas de Cartel
Para denunciar, o consumidor deve coletar provas, como fotografias de preços em postos próximos e notas fiscais. Denúncias podem ser feitas ao CADE, ao Ministério Público do Rio de Janeiro e à ANP, através de seus canais de atendimento. O ideal é documentar os preços em diferentes postos, especialmente quando os valores são idênticos.
Denúncias Anônimas e Responsabilidade do Consumidor
Os consumidores podem optar por denunciar de forma anônima, utilizando canais como o Disque Denúncia RJ. Fiscalizar é um direito e um dever do cidadão, essencial para que órgãos como CADE e Procon possam combater práticas que prejudicam o consumidor e a economia.

