O Cenário da Inflação em 2025
Nesta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará os dados finais sobre a inflação oficial do Brasil, mas já é possível observar que o comportamento do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ao longo de 2025 desafiou a maioria das previsões do mercado feitas no início do ano. No final de 2024, diante de um período de valorização do dólar, adversidades climáticas e um ritmo econômico robusto, as expectativas dos economistas eram bastante sombrias.
Naquele momento, havia uma preocupação crescente de que o Banco Central (BC) não conseguiria controlar a inflação, especialmente com as novas políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que frequentemente ameaçavam alterar as dinâmicas do comércio global. “O clima estava sombrio para os indicadores econômicos, o que intensificou o pessimismo no mercado”, comenta André Braz, coordenador dos índices de preços no Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Esse pessimismo se refletiu nas previsões: o primeiro Boletim Focus de 2025 estimava uma inflação em torno de 4,99% e uma taxa de câmbio de R$ 6 até o final de dezembro. No entanto, acontecimentos positivos mudaram o quadro. Segundo Fabio Romão, economista sênior da 4Intelligence, um levantamento mostrou que, entre os nove grupos analisados, quatro registraram queda nas expectativas para 2025 e um se manteve estável.
O subgrupo “alimentação no domicílio” foi um dos principais fatores que contribuíram para essa redução nas projeções de inflação, começando com uma expectativa de alta de 5,8% e chegando a 7% no meio do ano, enquanto a previsão atual é de apenas 2,3% para 2025. “Esse movimento está intimamente relacionado à moderação dos preços agropecuários esperados para este ano”, destaca Romão.
Queda de Preços em Alimentos
O agronegócio teve um desempenho melhor do que o previsto, com safras superando as expectativas e a ausência de eventos climáticos que poderiam comprometer as plantações, resultando em uma contenção na inflação dos alimentos, que vinha em ascensão desde 2024. “Tivemos safras favoráveis e a gripe aviária, embora temporária, aumentou a oferta doméstica de proteínas, o que resultou em preços mais baixos”, explica Romão.
Um levantamento do FGV Ibre para o g1 revela que metade dos dez itens que mais contribuíram para a contenção da inflação pertence ao grupo de alimentos. Produtos como laranja-pera (-27,21%), batata-inglesa (-26,57%) e arroz (-24,24%) se destacaram, apresentando uma queda média de 16,9%, aliviando a pressão sobre as famílias de baixa renda, cuja despesa com alimentação é proporcionalmente mais alta.
O estudo considera a variação acumulada entre janeiro e novembro, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15). Outro destaque é o segmento de bens duráveis, que inclui eletrodomésticos e eletrônicos, que normalmente responde rapidamente ao aumento das taxas de juros, registrando um recuo médio de 3,5% no mesmo período.
“Altos juros encarecem o crédito e reduzem a demanda por bens de maior valor, levando empresas a oferecerem descontos para esvaziar os estoques”, continua Braz.
Aumento nos Preços dos Serviços
Por outro lado, um levantamento da FGV indica que os serviços livres e os preços monitorados foram os principais responsáveis pela inflação acumulada até novembro. Seis dos dez itens que contribuíram para a alta da inflação são serviços, como aluguel, refeições e ensino fundamental, que juntos representam 15,8% do orçamento doméstico e apresentaram uma inflação média de 6,2% entre janeiro e novembro de 2025, acima da meta de 3% estabelecida pelo BC.
Um caso notável é o café, que viu seu valor subir 43,27% no ano até novembro, resultado de um choque de oferta relacionado a fatores climáticos e câmbio, e não necessariamente a condições de crédito. “A taxa de desemprego, que encerrou em 5,2% no trimestre terminado em novembro, o menor nível desde 2012, também contribuiu para a demanda firme por serviços, dificultando uma desaceleração rápida dos preços”, finaliza Braz.
Expectativas para o Futuro
A expectativa é que a inflação no Brasil termine o ano dentro da meta de tolerância do Banco Central, estabelecida em 4,50%. Isso representaria uma desaceleração em relação a 2024, que foi de 4,83%. Apesar disso, os brasileiros ainda sentem os preços pesarem no orçamento, resultado de um aumento significativo nos alimentos nos últimos anos.
Os dados indicam que os preços de alimentação acumulam um crescimento muito superior à média da inflação, afetando o poder de compra das famílias. “Muitas delas precisam abrir mão de outros consumos para garantir a alimentação em casa, e mesmo com a melhoria nos preços, os salários não compensaram os aumentos dos últimos cinco anos”, explica Braz.
O próximo ano será eleitoral, o que pode trazer medidas de transferência de renda e, consequentemente, maior pressão sobre os preços. Fatores como clima, desempenho das safras e a evolução do mercado de trabalho também devem ser considerados. “Por ora, as expectativas são otimistas, pois acreditamos que o Banco Central está comprometido com a meta de inflação. Contudo, desafios como o cenário político e as condições climáticas permanecem”, conclui Braz. Os economistas também destacam que é preciso estar atento ao mercado de trabalho aquecido e ao câmbio, mas há perspectivas de uma possível melhora nos preços dos alimentos, dependendo das condições climáticas e das safras futuras.

