Cantora Mineira Faz História na Música
Aos 91 anos, Maria Darci Resende, carinhosamente chamada de Marie, demonstra que a música é mais que uma paixão; é uma verdadeira razão de viver. Desde a infância, quando aos três anos já encantava os convidados da família com sua voz doce, o talento musical a acompanhou por toda a vida. “Eu não gostava muito, mas era obediente”, relembra a artista, que mantém uma rotina ativa de ensaios, independentemente de ter shows marcados.
A música, que inicialmente era apenas uma forma de entreter amigos e familiares, tornou-se uma companheira inseparável para Marie. Mesmo com diploma em Direito e uma longa carreira como advogada, ela nunca deixou a música de lado. “A música pra mim é a maior manifestação divina. É a comunicação mais direta que sinto com o criador. Ela é espiritual, não posso ficar sem”, afirma.
Nascida em Perdizes, Minas Gerais, em março de 1934, Marie reside atualmente em Uberaba. Seu show mais recente, intitulado “Talento Não Tem Idade”, aconteceu no Centro Cultural Cecília Palmério e contou com a participação de sete músicos. Marie tem um profundo respeito pelo repertório que escolhe. “Não importa se é uma canção simples ou uma ópera, eu ensaio com dedicação. O público que sai de casa para me ver merece sempre o melhor”, garante.
Uma Joia Rara na Música Brasileira
Influenciada pela icônica Édith Piaf, Marie também canta em francês e espanhol, enriquecendo ainda mais seu repertório. A artista já se apresentou em diversos palcos internacionais, incluindo os Estados Unidos e a Suíça, onde reside uma de suas filhas. Um dos momentos mais marcantes de sua carreira foi quando se apresentou na Confeitaria Colombo, um dos estabelecimentos mais tradicionais do Rio de Janeiro. “Me apresentar lá foi um orgulho imenso. É um espaço histórico, um marco da cultura brasileira”, lembra.
A vaidade também faz parte da rotina de Marie, que se cuida para estar sempre bem apresentada nos shows. “Quando subo no palco, agradeço a Deus pela oportunidade. Valorizo cada fã que vem me assistir. Eu me conecto com eles e busco sempre entregar o melhor”, afirma.
Uma Vocação além da Profissão
Marie vê sua carreira como uma vocação, mais do que uma profissão. Ela revela que nunca cobrou para fazer um show, pois sempre cantou por amor. “Eu sempre canto de graça. Meus concertos são caríssimos, mas faço questão de valorizar os músicos que me acompanham”, conta a artista, que frequentemente reverte a renda de seus shows para instituições de caridade.
Quando questionada sobre a possibilidade de parar de cantar, a resposta é direta: “Parar pra quê? Enquanto minhas cordas vocais estiverem boas, vou continuar cantando. Se não me chamarem para shows, cantarei em casa. A música sempre estará presente na minha vida”.
Uma Mensagem às Novas Gerações
Maria Darci cresceu em uma época em que as oportunidades para as mulheres eram limitadas, mas mesmo assim construiu uma carreira notável na música. “A vida termina quando termina”, deixa o recado para aqueles que acham que já é tarde para seguir seus sonhos. Durante a juventude, Marie viveu intensamente a boemia carioca e até enfrentou a repressão da ditadura, sempre com um olhar otimista.
Seu amor pela Lapa, bairro icônico do Rio de Janeiro, foi eternizado em suas canções. A trajetória de Marie é marcada por desafios, mas também por conquistas. No fundo, ela guarda memórias de momentos especiais no Coral Vera Cruz e das lições aprendidas sob a regência do maestro Isaac Karabichewski. “Ser regida pelo Isaac foi uma honra. A música se tornou mais séria para mim nesse período”, relembra.
Reconhecimento e Gratidão
O músico Fausto Reis Rocha Oliveira, conhecido como Faustinho, recorda a primeira vez que viu Marie se apresentar. “Foi em 1994, no show Tributo a Noel Rosa, e desde então nunca mais me esqueci dela. Marie tem um talento incrível para encantar o público”, elogia. A artista lançou seu primeiro álbum, “Lembranças do Meu Canto”, na década de 1980, e foi uma verdadeira maratona para gravá-lo, mas isso não a desmotivou.
Com a ajuda de Faustinho e outros maestros, Marie lançou o CD “Soberana” em 2002, e afirma que isso foi mais fácil e menos custoso do que o primeiro vinil. “Não preciso de mais”, conclui. Com um repertório que inclui bolero, samba, ópera e MPB, Marie continua a brilhar no cenário musical, mostrando que, enquanto houver vida, a música sempre terá espaço em seu coração.

