Avanços no Controle de Infecções em Unidades de Terapia Intensiva
Por Luis Eduardo de Sousa
O aprimoramento dos processos de internação nas unidades de terapia intensiva (UTIs) e enfermarias dos hospitais públicos tem gerado resultados financeiros impressionantes, com economias que ultrapassam os R$ 151 milhões. Este é o resultado da terceira edição de um projeto inovador, desenvolvido pelo Ministério da Saúde em colaboração com hospitais privados filantrópicos, inseridos no Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde).
Nos últimos dois anos, a iniciativa conseguiu reduzir em 26% o número de infecções nas UTIs dos 285 hospitais que participaram. Essa redução de custos não apenas beneficia as finanças do SUS (Sistema Único de Saúde), mas também reverte-se em melhorias na qualidade do atendimento, possibilitando que recursos sejam direcionados para outras áreas prioritárias.
A experiência demonstrou que mudanças simples nos procedimentos podem gerar impactos significativos na gestão de custos. Segundo especialistas, a metodologia aplicada baseia-se no que é conhecido como “ciência da melhoria”, mostrando que ações eficazes não necessariamente exigem investimentos financeiros altos. Neste caso, o foco esteve na reavaliação de processos internos e no treinamento da equipe.
Entre os cinco hospitais filantrópicos envolvidos no projeto estão instituições reconhecidas, como HCor, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Beneficência Portuguesa, Hospital Israelita Albert Einstein e Hospital Moinhos de Vento e Sírio Libanês. Esses hospitais têm a responsabilidade de disseminar seus conhecimentos com as demais unidades do SUS, e em troca, gozam de imunidade tributária para reinvestir no programa.
Os profissionais dessas instituições realizam treinamentos com as equipes de hospitais públicos, focando na observância rigorosa dos protocolos na internação de pacientes, visando a contenção das três principais infecções que afetam os pacientes em UTIs: infecção primária de corrente sanguínea (associada ao uso de cateter venoso central), pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV) e infecções do trato urinário associadas ao uso de cateteres.
Cláudia Garcia, coordenadora-geral do projeto, ressalta a importância de continuar a seguir o Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde, estabelecido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “O que se faz”, explica Cláudia, “é cumprir criteriosamente cada passo desse protocolo, adaptando-o à realidade de cada hospital”.
Um dos aspectos destacados no protocolo é a inclinação da cabeceira do leito de pacientes com pneumonia, que deve variar entre 30° e 45°. Apesar de algumas unidades contarem com leitos mais antigos e simples, as equipes têm se esforçado para implementar essa recomendação da melhor maneira possível.
Outro ponto crucial envolve a remoção precoce de dispositivos invasivos, como cateteres e ventiladores mecânicos, reduzindo consideravelmente os riscos de infecções. Embora essas práticas possam parecer simples, representam um desafio em um sistema de saúde que enfrenta desigualdades regionais. Um exemplo é o Hospital da Mulher em Fortaleza (CE), que enfrentou, no ano passado, o fechamento de UTIs neonatais devido à falta de insumos, segundo o Diário do Nordeste.
Atualmente, o projeto, que se encontra na sua terceira edição, é dividido em ciclos de três anos. A média de 26% de redução nas internações é um dado geral observado nas 285 unidades participantes até agora. A expectativa é alcançar até 50% de redução até dezembro de 2026, abrangendo um total de 3.542 leitos monitorados.
Além da economia financeira, a diminuição do tempo de internação se traduz na disponibilização de mais leitos, o que é essencial para atender a alta demanda do SUS. Cristiane Reis, responsável pela coordenação-geral de projetos da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, enfatiza: “Reduzir o tempo de internação é fundamental para atender à demanda”.
No Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, a implementação da estratégia gerou uma significativa mudança cultural entre os profissionais. A diretora-geral da unidade, Amanda Corrêa da Cruz, comenta: “À medida que um profissional vai incorporando a estratégia, ele reproduz a um colega, que por sua vez transmite a outro. Acaba se tornando uma cultura a nível macro”.
No geral, as principais reduções foram notadas nas infecções do trato urinário, com diminuições de 52% em pediatria e 37,5% em adultos. Embora algumas unidades tenham alcançado reduções mais expressivas que outras, todas apresentaram progresso desde o início das intervenções.
O projeto Saúde Pública conta com o apoio da Umane, uma associação civil que tem como meta auxiliar ações voltadas à promoção da saúde.

