Disputa eleitoral no Rio de Janeiro evidencia divisão entre elite e população
O Leblon, bairro com o metro quadrado mais caro do Brasil, integra a 17ª zona eleitoral do Rio de Janeiro, onde Lula conquistou 49,81% dos votos, contra 39,49% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição. Em contrapartida, Paciência, bairro da capital com o menor valor de moradia, localizado na região eleitoral de Santa Cruz, registrou mais de 56% dos votos para o candidato do PL e 35% para o atual presidente. Esse contraste delineia um quadro que desafia a lógica tradicional do PT de combate às elites e defesa dos mais pobres.
Ao considerar todos os bairros da Zona Sul carioca, que inclui áreas nobres como Copacabana, Ipanema, Gávea e Flamengo, o padrão torna-se ainda mais evidente: Lula venceu em todos esses locais. Essa tendência não é inédita, mas reforça a consolidação da região como um polo progressista. Em 2018, Jair Bolsonaro venceu em todos os bairros da capital no primeiro turno, enquanto Fernando Haddad, candidato petista na época, foi preterido por Ciro Gomes.
Resultados eleitorais mostram consolidação da esquerda na Zona Sul
O desempenho dos principais candidatos no primeiro turno das últimas três eleições evidencia essa mudança:
17ª zona eleitoral (Leblon, Ipanema e Copacabana):
2018: Ciro, Boulos, Marina e Haddad 37,78% X Jair Bolsonaro 50,43%
2022: Lula 46,91% X Jair Bolsonaro 36,82%
2026: Lula 49,81% X Flávio Bolsonaro 39,49%
5ª zona eleitoral (Copacabana, Leme):
2018: Ciro, Boulos, Marina e Haddad 39,20% X Jair Bolsonaro 51,68%
2022: Lula 48,72% X Jair Bolsonaro 39,17%
2026: Lula 53,06% X Flávio Bolsonaro 39,14%
211ª zona eleitoral (São Conrado, Gávea, Jardim Botânico):
2018: Ciro, Boulos, Marina e Haddad 48,70% X Jair Bolsonaro 40,80%
2022: Lula 58,26% X Jair Bolsonaro 30,59%
2026: Lula 58,70% X Flávio Bolsonaro 32,31%
4ª zona eleitoral (Botafogo, Flamengo, Humaitá):
2018: Ciro, Boulos, Marina e Haddad 46,08% X Jair Bolsonaro 43,95%
2022: Lula 54,17% X Jair Bolsonaro 32,51%
2026: Lula 59,22% X Flávio Bolsonaro 32,14%
Contexto político e social explica o alinhamento da elite progressista
O cientista político Leandro Consentino destaca que a aliança das elites com a esquerda não é exclusividade do Rio. Ele compara com cidades costeiras dos Estados Unidos, como São Francisco, Los Angeles e Nova York, que também são redutos progressistas. Segundo ele, a escolaridade e a exposição a diferentes valores influenciam esse fenômeno: “Quanto mais cosmopolita a pessoa se torna e mais acesso a informações tem, maior a afinidade com discursos progressistas, afastando-se dos valores conservadores tradicionais”.
Consentino avalia que o apoio expressivo da elite carioca a Lula é coerente, mesmo que a imagem do PT seja tradicionalmente associada aos mais pobres. “A esquerda sempre teve boa aceitação nas classes médias e altas, ilustradas por valores progressistas”, afirma.
Influência religiosa e conservadorismo moldam o voto nas regiões populares
Enquanto isso, no interior do estado do Rio e principalmente nas regiões fluminenses, o voto se inclina para a direita, influenciado por valores religiosos e conservadores da classe média baixa. Essa dinâmica se refletiu na vitória de Douglas Ruas (PL) no governo do estado em primeiro turno, e nas eleições de Carlos Jordy e Portinho para o Senado, ambos do Partido Liberal.
Apesar da expressiva votação de Ruas, seu desempenho na capital foi inferior ao do candidato derrotado Eduardo Paes (PSD). Na cidade do Rio, Ruas obteve 29,92% dos votos no Leblon e em Ipanema, enquanto Paes alcançou 63,77%. Em São Conrado, Gávea e Jardim Botânico, o ex-prefeito teve quase 70% dos votos.
Baixada Fluminense, reduto conservador, impulsiona vitória de Ruas
A consolidação da vitória de Ruas em primeiro turno teve apoio decisivo da região metropolitana, especialmente da Baixada Fluminense, que reúne 13 municípios, entre eles Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e Nilópolis. Embora essa região tenha sido um bastião do PT e da esquerda brizolista nas décadas de 80 e 90, hoje é um reduto conservador que dificulta o avanço das esquerdas e de Eduardo Paes no estado.
Nas eleições recentes, os 13 municípios da Baixada responderam por cerca de 22% do eleitorado estadual e deram quase 60% dos votos a Douglas Ruas e Flávio Bolsonaro. Para Consentino, a esquerda, que já teve esse eleitorado, hoje o interpreta de maneira equivocada, tanto em termos de valores quanto econômicos.
“No passado, a esquerda conquistava esse eleitorado com pautas econômicas, mas o conflito atual é mais sobre valores. A esquerda deslocou-se para pautas identitárias, acreditando que poderia atrair eleitores pela economia, o que não ocorre”, avalia.
Ele acrescenta que grande parte da classe média baixa busca ascensão independente do Estado, enquanto a esquerda mantém propostas centradas na atuação estatal, o que dificulta o diálogo com esse público.
O impacto do identitarismo elitista na eleição do Senado
O Rio contou com cinco candidatos principais ao Senado: Carlos Jordy e Portinho, eleitos pelo clã Bolsonaro; Benedita da Silva, aposta do PT; Pedro Paulo, apoiado por Eduardo Paes e parceiro da petista; e Monica Benicio (PSOL), viúva de Marielle Franco, que teve aceitação parcial da esquerda.
Apesar da rejeição ao indicado de Paes pelo Senado devido a denúncias passadas, Monica Benicio obteve votação abaixo do esperado, ficando em quinto lugar com menos de 10% dos votos. No entanto, seu desempenho nas áreas nobres do Rio chama atenção: alcançou quase 23% no Flamengo e 17% na Gávea, além de aproximadamente 17% no Leblon, 18% em Copacabana e Leme, e 24% em Laranjeiras.
Esses números indicam uma identificação da elite carioca com uma esquerda mais ligada às pautas identitárias. Consentino destaca que o futuro desse segmento dependerá da reorganização da esquerda após Lula e de quem liderará essa trajetória.
“O pós-Lula é incerto. A esquerda pode seguir um legado mais pragmático, com foco na pauta trabalhista, ou se fechar em pautas identitárias, o que provavelmente resultaria em um período prolongado de dificuldades, como observado internacionalmente”, conclui.

