Setor de Trabalho Enfrenta Desafios com Alta Rotatividade
O mercado de trabalho brasileiro viveu um aumento recorde na rotatividade de profissionais, atingindo a marca de 36% no final de 2024 e se mantendo nesse patamar ao longo de 2025. Dados coletados pelo economista Bruno Imaizumi, da 4intelligence, revelam que cerca de 9 milhões de pessoas optaram por deixar seus empregos, uma situação sem precedentes quando comparada a anos anteriores, como 2013, quando a rotatividade era de 28,6% em um cenário econômico igualmente aquecido.
Segundo Imaizumi, a principal razão para essa alta nos pedidos de demissão está na busca por melhores condições de trabalho e oportunidades mais vantajosas. “Se um funcionário decide se desligar, é muito provável que esteja se inscrevendo em um novo emprego que considera mais interessante, mesmo que fora do mercado formal, como empreender ou voltar a estudar”, explica.
Desafios da Retenção em um Mercado Aquecido
A crescente disputa por profissionais qualificados tem gerado um cenário complicado para as empresas, que enfrentam dificuldades para reter e qualificar seus colaboradores. O mesmo economista destaca que, com uma parte significativa da força de trabalho apresentando baixa qualificação, os trabalhadores estão mais propensos a alternar de emprego, mesmo em setores variados, contanto que as vagas não exijam alta formação.
Elisa Jardim, gerente da consultoria Robert Half, complementa que, apesar de um número considerável de vagas abertas, a escassez de profissionais qualificados se tornou um desafio. Ela aponta que, embora 44% das empresas ainda tenham níveis de rotatividade abaixo de 5%, a proporção de negócios que enfrentam um turnover superior a 10% — considerado alto — cresceu significativamente, alcançando 28%.
Impacto da Digitalização e Mudanças nas Aspiracões dos Trabalhadores
O baixo índice de desemprego tem intensificado a competição por talentos, permitindo que os trabalhadores se sintam mais confiantes para negociar sua posição. Jardim observa a influência da digitalização, onde empresas precisam equilibrar sua cautela orçamentária com investimentos em talentos para garantir sua competitividade no mercado.
A recente mudança de emprego de Ana Heloísa Pires, de 29 anos, ilustra a busca por melhores condições de trabalho. De acordo com Ana, que atua como analista de projetos no terceiro setor em Minas Gerais, a pressão no ambiente corporativo afetou sua saúde mental, levando-a a buscar uma nova oportunidade que oferecesse salários e benefícios mais atraentes.
A Nova Geração e suas Prioridades no Trabalho
Os anseios dos trabalhadores mudaram significativamente após a pandemia de Covid-19. Hoje, mais do que apenas salários, os profissionais valorizam ambientes de trabalho saudáveis e flexíveis. Essa mudança é especialmente evidente entre os jovens, que são mais inclinados a buscar novas oportunidades. Elaine Lopes, de 21 anos, exemplifica essa tendência, tendo mudado para um emprego que proporcionou melhores condições e maior alinhamento com suas aspirações.
Fernando de Holanda Barbosa Filho, economista e pesquisador do FGV Ibre, destaca que a crescente demanda por profissionais qualificados gera uma competitividade acirrada entre as empresas, forçando-as a oferecer salários mais altos para atrair talentos. No entanto, isso pode resultar em um aumento salarial que supera a produtividade, criando um desafio para os empregadores.
Consequências da Alta Rotatividade para as Empresas
As altas taxas de rotatividade têm um impacto negativo nas organizações, conforme enfatiza Jardim. A saída de funcionários-chave sem uma adequada transição de responsabilidades pode prejudicar o fluxo de trabalho e a produtividade do time. Muitas vezes, os colaboradores não têm a chance de passar adiante seus conhecimentos, o que é crítico para a continuidade dos processos.
Visando mitigar essa situação, as empresas estão se esforçando para reter seus talentos. O supervisor operacional Emerson Nery, de 47 anos, retornou à sua antiga empresa após perceber que a nova proposta oferecia condições favoráveis e oportunidades de crescimento. A sua trajetória ilustra como as organizações estão se adaptando a essa nova realidade do mercado de trabalho.
Perspectivas Futuras
Embora a rotatividade tenha alcançado níveis recordes em 2025, Imaizumi acredita que este cenário pode começar a se estabilizar. Ele sugere que muitos trabalhadores já se alocaram em empregos que se adequam às suas expectativas e que, após um período de adaptações, a tendência de desligamentos pode diminuir em 2026. O movimento de busca por melhores condições de trabalho deve continuar a moldar o panorama do mercado, refletindo as prioridades dos profissionais contemporâneos.

