Uma História de Dor e Coragem
Após muitos anos de silêncio, Landfair, uma mulher que sofreu abuso sexual na infância por R. Kelly, decidiu compartilhar sua dolorosa experiência. Em seu livro de memórias, ela narra cada detalhe de um processo de aliciamento que começou quando tinha apenas 14 anos. O cantor, que se aproximou da família, tornou-se um ‘amigo’ e visitava sua igreja, sempre elogiando a adolescente. O que se iniciou como conversas inocentes sobre música rapidamente evoluiu para um ciclo de controle, isolamento e abuso sexual. “Eu aprendi sobre sexo pela lente de um pedófilo”, desabafa Landfair.
Ela descreve como foi manipulada para acreditar que tinha uma conexão especial com o cantor. “Você me entende em um nível que está além de qualquer coisa que eu já experimentei”, dizia R. Kelly. Em seguida, eram impostas exigências que a deixavam em uma posição vulnerável. “Se você me ama como eu amo você, precisa fazer o que eu digo”, recorda. Landfair revela que, ao se recusar a participar de atos sexuais, frequentemente era punida.
Os Efeitos do Abuso e a Exposição Pública
O desgaste emocional se intensificou quando um vídeo dela, com apenas 14 anos, foi divulgado, mostrando o cantor urinando sobre ela. A gravação, que se tornou um dos principais pontos do julgamento que durou seis anos, foi exibida repetidamente. Apesar de toda a evidência, R. Kelly foi absolvido em 2008. “Foi degradante, constrangedor, traumatizante, meu corpo sendo jogado e visto pelo mundo”, desabafa Landfair. “Era vendido ilegalmente e comercializado em esquinas, em feiras. Pessoas com quem eu cresci faziam ‘festas’ para assistir.”
A identidade dela foi exposta durante o julgamento, o que a fez passar por um enorme constrangimento. “Meu nome não foi ocultado, e isso significava que estava na boca de todo mundo, dentro e fora do tribunal”, escreve Landfair. Ela ressalta como o racismo também influenciou a forma como foi tratada. “Se tivesse sido uma garota caucasiana, especialmente por um homem negro, eu teria sido vista de forma diferente. Não estou aqui para jogar a carta racial, mas é uma realidade”, diz.
O Caminho da Reinvenção
Após a absolvição de Kelly, Landfair permaneceu em seu círculo por alguns anos, mas acabou saindo aos 26. “Eu estava perdida, confusa, muito assustada”, afirma. “Eu realmente não conhecia a vida e a normalidade. Tive que reconstruir todo o meu ser.” Inicialmente, ela não se via como uma vítima, apenas como um assunto de conversa entre as pessoas. “Sabia que me chamavam de ‘vadia’ e ‘interesseira’ enquanto o elogiavam”, destaca.
A transformação de sua perspectiva começou ao assistir à série documental ‘Surviving R. Kelly’ em 2019. “Foi mortificante. Por muito tempo, pensei que eram desejos dele, mas percebi que ele havia machucado tantas mulheres”, reflete. Ela sentiu uma culpa intensa: “Eu o protegi, menti por ele. Ele conseguiu ferir tantas pessoas após mim.”
Testemunho e Libertação
No ano de 2022, Landfair teve a coragem de testemunhar contra R. Kelly em Chicago. “Eu expurguei naquele tribunal. Não quis segurar nada”, diz ela. Ao sair do depoimento, se deitou no chão e chorou. “Foi espiritual, como se as toxinas estivessem saindo de mim. Foi meu momento de libertação.” Kelly foi condenado em 2021 a 30 anos de prisão por extorsão e tráfico sexual, além de mais 20 anos em 2022, que cumprirá simultaneamente.
Hoje, aos 41 anos, Landfair é mãe de um menino de cinco anos e se dedica a uma organização que apoia mães solo, além de trabalhar em um programa de saúde escolar. “Estou no processo de reparar minha vida, mas estou muito mais avançada.” Ela admite que ainda enfrenta gatilhos, especialmente ao ouvir músicas de R. Kelly. “Há momentos em que sou ativada. Há uma melodia que me leva de volta a um lugar”, conta. “Mas fiz o trabalho. Agora, consigo atravessar essa sensação negativa.”
Reflexões sobre o Passado
Sobre o ex-astro, ela reflete: “Foi poder. Para ele, era mais gratificante ver que conseguia o que queria.” Ao lembrar de R. Kelly, Landfair mistura sentimentos de raiva e tristeza: “No fim, eu só espero que ele entenda. Talvez agora ele entenda.” Em nota enviada à revista Rolling Stone, R. Kelly se manifestou, alegando que Landfair foi injustamente forçada ao escrutínio público e que espera que ela encontre sucesso e paz.

