Conflitos e Estratégias na Direita Fluminense
No cenário político do Rio de Janeiro, o debate sobre o futuro contrato de gás se torna uma questão divisória entre as facções do Partido Liberal (PL) que apoiam o governador Cláudio Castro. Estão em pauta duas propostas para o fornecimento de gás no estado, com o contrato atual prestes a vencer em 2027. A primeira opção consiste em renovar a concessão com a Naturgy, enquanto a segunda envolve um novo processo licitatório.
Desde o fim do ano anterior, Castro tem trabalhado para persuadir o senador Flávio Bolsonaro a apoiar a indicação de seu chefe da Casa Civil, Nicola Miccione, para assumir o Palácio Guanabara a partir de abril. A estratégia de Castro requer sua renúncia, seguida da escolha de um novo governante interino pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) até dezembro. Castro avalia que o déficit de R$ 19 bilhões representa um obstáculo significativo para seu sucessor, e a renovação da concessão do gás pode ser a solução ideal para equilibrar as contas do estado através de uma outorga bilionária que ainda está sendo calculada. O governo defende a continuidade da Naturgy, prestadora de serviços desde a privatização em 1997, como uma forma de garantir a estabilidade do setor.
Por outro lado, o grupo vinculado a Altineu Côrtes defende uma abordagem diferente. Buscando emplacar o secretário das Cidades, Douglas Ruas, como governador interino, a ideia é realizar uma nova licitação para o fornecimento de gás ainda neste ano. Altineu e Ruas acreditam que uma nova concorrência traria mais recursos aos cofres públicos e melhoraria a qualidade dos serviços prestados à população fluminense.
Questões e Pressões sobre a Naturgy
A operação da Naturgy no Rio tem sido alvo de críticas na Alerj desde 2023. Sob a presidência de aliados do descontentado Rodrigo Bacellar, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) solicitou a quebra de sigilo da empresa na tentativa de questionar a qualidade de seus serviços, especialmente no interior do estado. Contudo, a situação da Naturgy começou a mudar quando o deputado estadual Guilherme Delaroli, atual presidente interino da Alerj, tomou uma atitude favorável a Castro e arquivou a comissão que visava obstruir a renovação da concessão.
Recentemente, a Naturgy defendeu sua atuação, afirmando ter investido mais de R$ 11 bilhões no estado desde os anos 90, gerando aproximadamente 14 mil empregos. Além disso, a empresa comprometeu-se a investir R$ 672,3 milhões em 18 municípios, demonstrando sua relevância econômica e social.
Interesses e Vigilância Política
O fornecimento de gás é um tema sensibilizador entre os políticos do Rio, especialmente devido às relações de interesse com os setores de combustíveis. O deputado federal Pedro Paulo Carvalho, do PSD, alinhado ao prefeito Eduardo Paes, manifestou preocupações quanto à transparência na renovação da concessão da Naturgy, afirmando que seu partido irá monitorar de perto toda a negociação. “O PSD vai acompanhar, fiscalizar com lupa toda essa negociação pelo governo do estado. Nada de perdão, acordos sem a absoluta transparência. Fica o recado”, postou no Twitter.
A pressão sobre a concessão aumentou no início deste ano, quando um parecer da Secretaria Geral de Controle Externo (SGE) do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) indicou a rejeição da prorrogação da concessão da Naturgy, alegando que não está prevista em lei. Em resposta, o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (IBP) exigiu maior clareza no processo de prorrogação dos contratos.
Rivalidades e Desafios Futuros
A disputa entre os grupos de Castro e Altineu não se limita ao contrato de gás; as relações entre eles têm sido marcadas por tensões desde 2020. Após desentendimentos, houve reconciliações, como a entrega de pastas importantes ao grupo de Altineu, mas novos rompimentos também ocorreram, incluindo a entrega de cargos por parte de Altineu na administração estadual em 2023. Esse embate reflete a luta pelo poder no estado, que se intensifica à medida que Castro se prepara para a escolha de um substituto interino e também se preocupa com o julgamento do caso Ceperj no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que investiga o uso indevido da fundação estadual para contratações temporárias na campanha de 2022.
A expectativa em torno do julgamento é alta, e a posição dos ministros do TSE, incluindo a ministra Isabel Gallotti, que já votou pela cassação e inelegibilidade de Castro, é observada com atenção. A definição de como os ministros se posicionarão em relação ao governador pode impactar diretamente na corrida eleitoral e nos futuros desdobramentos políticos do estado.

