O Reconhecimento da Academia
A comunidade acadêmica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) prestou homenagens ao economista Wilson Suzigan ao outorgar-lhe o título de professor emérito, em setembro de 2024. Infelizmente, Suzigan faleceu em 10 de abril, aos 84 anos, devido a complicações de uma doença autoimune. Seu legado é celebrado não apenas pela profundidade teórica de suas contribuições ao pensamento econômico no Brasil, mas também pelo papel fundamental que desempenhou como formador de novos pesquisadores.
A economista Suzana Paiva, da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), destacou a importância de Suzigan como orientador: “Ele era a síntese perfeita entre rigor acadêmico e generosidade intelectual”. Paiva foi orientada por ele durante sua pesquisa de doutorado em 2006, quando obteve apoio da FAPESP. “Suzigan me presenteou com o tema da minha tese e me ensinou a conduzir pesquisas com responsabilidade e sensibilidade”, recorda.
Trajetória Acadêmica e Contribuições
Nascido em Americana, São Paulo, Suzigan graduou-se em ciências econômicas pela PUC-Camp em 1961. Em 1971, começou sua carreira no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ao mesmo tempo em que lecionava na Fundação Getulio Vargas (FGV) e na PUC-Rio. Sua jornada na Unicamp teve início em 1985, onde atuou no Instituto de Economia (IE) até sua aposentadoria em 1999, e no Instituto de Geociências (IG) como professor colaborador.
O impacto de sua atuação pode ser medido pelas 27 teses de doutorado e 18 de mestrado que orientou, além de 42 projetos de iniciação científica. A Plataforma Acácia, que mapeia a produção científica no Brasil, contabiliza 2.455 “descendentes” de Suzigan, demonstrando a abrangência de sua influência ao longo das gerações.
Eduardo Albuquerque, da UFMG, relembra ter vivido a experiência de ter Suzigan como membro de sua banca de doutorado em 1998. “Ele tinha a habilidade única de oferecer críticas construtivas, sempre ampliando a discussão para além do óbvio”, afirma.
Obras e Metodologia Inovadora
Um dos marcos da carreira de Suzigan foi sua dissertação de mestrado, “O processo de substituição de importações no Brasil”, defendida em 1968, e sua tese de doutorado, “Investment in the manufacturing industry in Brazil, 1869-1939”, apresentada em 1984 na Universidade de Londres. Esta última resultou no livro “Indústria brasileira – Origem e desenvolvimento”, que revolucionou a forma de estudar a industrialização brasileira ao aplicar dados quantitativos de forma sistemática.
Segundo Renato Garcia, sucessor de Suzigan na Unicamp, ele foi pioneiro ao catalogar manualmente dados de exportação de máquinas para o Brasil, levando a novas interpretações sobre a industrialização no país, o que transformou a leitura dessa história nas principais escolas de economia.
Legado e Últimos Anos
O historiador André Villela ressalta que Suzigan deixou um legado inestimável, autor de obras fundamentais como “História monetária do Brasil”, coautoria com o cubano Carlos Manuel Peláez. “Qualquer pesquisador da minha área se sentiria honrado em ter escrito uma de suas obras”, diz Villela, sublinhando a relevância de Suzigan no cenário acadêmico.
Nos últimos anos, embora tenha se afastado das atividades do dia a dia na academia, continuou ativo como editor-chefe da Revista Brasileira de Inovação (RBI), além de contribuir para a criação de outras publicações acadêmicas relevantes e da ABPHE. Garcia recorda com carinho uma de suas últimas conversas com Suzigan, que mantinha uma postura proativa mesmo em sua saúde debilitada.
Albuquerque ainda fala sobre o humor e a personalidade cativante de Suzigan, relembrando sua ocasional estratégia de submeter artigos para garantir um convite em eventos acadêmicos importantes, como o seminário de Diamantina, que o homenageará na sua próxima edição. O economista deixa um legado duradouro, sendo lembrado por sua integridade, generosidade e um amor genuíno pela educação e pela pesquisa.
Viúvo desde 2022, Wilson Suzigan deixa dois filhos e quatro netos, mas seu impacto na economia e na formação de novos economistas perdurará por gerações.

