O Reconhecimento do Circo de Tradição Familiar
O Circo de Tradição Familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil na quarta-feira, 11 de março. A decisão foi unânime, tomada pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural em uma reunião no Palácio Gustavo Capanema, localizado no Centro do Rio de Janeiro. Com essa deliberação, a manifestação cultural passa a integrar o Livro de Registro das Formas de Expressão, um passo significativo que reafirma a relevância dessa prática para a memória, identidade e formação da sociedade brasileira.
A reunião contou com a presença de importantes figuras da cultura, incluindo a presidenta da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Maria Marighella, e outros diretores e coordenadores da instituição, além de professores, estudantes e membros do circo. Tal diversidade de participantes reflete a importância do reconhecimento e a mobilização em torno dele.
Uma Conquista Coletiva e Simbólica
Durante a reunião, Maria Marighella ressaltou a importância histórica da conquista e homenageou aqueles que lideraram o processo de reconhecimento do circo de tradição familiar no Brasil. “O patrimônio se relaciona com a vida. É preciso celebrar as pessoas, a família Zanchettini, em nome da nossa mestra das artes Edlamar e de Erimeide Zanchettini do Circo Zanchettini. Vocês são autoras dessa proposta e honram toda essa tradição”, afirmou com entusiasmo.
A presidenta também destacou que março é um mês simbólico por várias razões, incluindo o Mês do Circo e o Mês das Mulheres, lembrando que muitas mulheres do circo foram fundamentais na mobilização por esse reconhecimento. Segundo Marighella, “um processo como esse só pode ocorrer em um contexto democrático, que valoriza a cultura como um direito fundamental. O circo de tradição familiar é parte essencial do imaginário brasileiro, contribuindo para a cultura e a arte do país”.
Avanços e Reconhecimento do Circo no Brasil
Maria Marighella também fez questão de agradecer o trabalho realizado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e seus colaboradores, que foram essenciais na formalização do reconhecimento. Entre eles estava José Leão Schlosser, um reconhecido artista circense que participou ativamente da mobilização.
Outro ponto ressaltado pela presidenta foi a criação do Centro de Circo na Funarte e a recente inauguração da nova lona da Escola Nacional de Circo Luiz Olimecha, celebrando os 50 anos da Funarte e reforçando o compromisso em fortalecer essa expressão artística no Brasil.
Um Patrimônio Vivo e Itinerante
O Circo de Tradição Familiar é caracterizado pela sua itinerância e pela organização em núcleos familiares, transmitindo saberes e modos de vida de geração para geração. Em muitos casos, essas famílias circenses chegam à oitava geração, mantendo viva uma tradição que é, ao mesmo tempo, um espetáculo, uma forma de trabalho e um modo de vida. Essa expressão cultural não só entretém, mas também desempenha um papel social, levando arte e cultura a locais onde as opções são limitadas.
Uma Jornada Longa e Deliberada
A trajetória até o reconhecimento do Circo de Tradição Familiar foi marcada por um longo processo que começou em 2005, quando o Circo Zanchettini, liderado por Wanda Cabral Zanchettin, iniciou a mobilização para o reconhecimento do circo como patrimônio cultural.
Desde então, o movimento envolveu uma rede de famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas, culminando em um dossiê técnico que embasou o registro. Edlamar Maria Cabral Zanchettin, filha de Wanda e também premiada no Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes, destaca a importância desse reconhecimento para a continuidade da tradição circense.
Salvaguarda e Políticas Públicas
Com o registro, inicia-se um novo capítulo focado na salvaguarda do Circo de Tradição Familiar. O Iphan, em colaboração com a Funarte e outras instituições, é responsável por expandir a mobilização da comunidade circense, avaliar as políticas existentes e criar ações que garantam a sustentabilidade sociocultural dessa tradição.
As recomendações incluem fortalecer as políticas de fomento, melhorar as condições de trabalho dos circenses e reconhecer as especificidades do estilo de vida itinerante. O reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como patrimônio cultural do Brasil não é apenas uma valorização de uma linguagem artística essencial, mas também um compromisso de garantir a continuidade dessa tradição que, por gerações, leva arte, imaginação e união a diversos territórios brasileiros.

