Uma Conquista Histórica para o Circo Brasileiro
No dia 11 de março, o Circo de Tradição Familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, em uma decisão unânime do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. A reunião, ocorrida no Palácio Gustavo Capanema, no Centro do Rio de Janeiro (RJ), marca um momento significativo para a valorização dessa expressão cultural. A partir de agora, o circo está inscrito no Livro de Registro das Formas de Expressão, um reconhecimento que ressalta sua importância para a memória, identidade e formação da sociedade brasileira.
A reunião foi prestigiosa e contou com a presença de diversas personalidades importantes do universo das artes, como a presidenta da Fundação Nacional de Artes (Funarte), Maria Marighella, e outros representantes da instituição. Esses profissionais têm sido fundamentais na mobilização em prol de tal reconhecimento. Nela estava também uma variedade de educadores e agentes do campo circense, todos comprometidos com a preservação desta rica tradição cultural.
Durante a cerimônia, Maria Marighella enfatizou a importância histórica desta conquista e o papel de todos os envolvidos no processo. “O patrimônio está intrinsecamente ligado à vida. Precisamos celebrar a contribuição da família Zanchettini e de figuras como Edlamar e Erimeide Zanchettini, que são símbolos dessa arte e da tradição circense brasileira”, declarou. Ela acrescentou que março é um mês cheio de significados, não apenas pela celebração do circo, mas também por ser o mês das mulheres, destacando a liderança feminina na luta pelo reconhecimento dessa prática cultural.
Uma História de Luta e Mobilização
A trajetória até a formalização desse reconhecimento foi longa e repleta de mobilizações. O pedido inicial para o registro foi apresentado em 2005 pelo Circo Zanchettini, no Paraná, sob a liderança de Wanda Cabral Zanchettin. Desde a década de 1990, Wanda vinha defendendo a necessidade de reconhecer o circo como parte integrante do patrimônio cultural brasileiro.
Com o apoio de famílias circenses, associações e instituições de pesquisa, o processo evoluiu, culminando na pesquisa que embasou o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) e na elaboração do dossiê técnico necessário para o registro. Entre as figuras proeminentes nesse esforço estava Edlamar Maria Cabral Zanchettin, filha de Wanda, cuja dedicação à arte circense é amplamente reconhecida, inclusive com o Prêmio Funarte Mestras e Mestres das Artes.
O parecer técnico que fundamentou a decisão do Conselho Consultivo destaca que o circo de tradição familiar é mais do que uma simples apresentação. Ele encapsula um sistema cultural complexo, fundamentado na transmissão oral de saberes e práticas ao longo de gerações. Nesse ambiente, a vida familiar, o trabalho artístico e o convívio comunitário se entrelaçam de maneira única sob a lona do circo.
O Papel Social do Circo Itinerante
Além de sua relevância artística, o circo itinerante desempenha um papel social essencial. Ele leva espetáculos e experiências culturais a regiões que frequentemente carecem de infraestrutura cultural permanente, atuando como um vetor de inclusão e diversidade.
A conquista do registro marca o início de uma nova fase voltada à proteção e promoção do Circo de Tradição Familiar. O dossiê recomenda que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em colaboração com a Funarte e outras entidades, amplie a mobilização da comunidade circense e desenvolva estratégias para fortalecer essa tradição. Entre as sugestões, estão o aumento do fomento à cultura circense, a melhoria das condições de trabalho dos artistas e o reconhecimento das especificidades do modo de vida itinerante.
O reconhecimento do Circo de Tradição Familiar como patrimônio cultural do Brasil é um passo importante que valoriza uma linguagem artística fundamental para a história cultural do país. Essa iniciativa também reafirma o compromisso de garantir as condições necessárias para que essa tradição, que atravessa gerações e se espalha pelos diversos territórios brasileiros, continue a levar arte, imaginação e promova encontros entre as comunidades.

