Retrospectiva da Gestão de Cláudio Castro
A gestão de Cláudio Castro à frente do governo do Rio de Janeiro deixou um legado misto, onde triunfos e fracassos convivem em um mesmo espaço. Embora existam dados que favorecem uma defesa de seus esforços, particularmente no campo econômico, o saldo político e administrativo revela-se mais complicado. Ao encerrar sua passagem pelo Palácio Guanabara, Castro deixa um estado marcado por crises institucionais, disputas judiciais e um considerável desgaste político.
Quando se fala em pontos positivos, um dos destaques é a geração de empregos formais. Apesar dos desafios, o estado fechou 2025 com um saldo impressionante de 100.920 novas vagas com carteira assinada, conforme dados do Novo Caged, posicionando-se em segundo lugar no Brasil. Esse número expressivo ajuda a compreender por que o governo enfatizou uma narrativa de recuperação econômica ao longo de sua gestão.
Cenário do Turismo e Suas Nuances
O setor do turismo também é frequentemente mencionado como uma vitrine de sucesso, embora o crédito precise ser compartilhado. O estado alcançou um recorde ao receber 2.196.443 turistas internacionais em 2025, um feito notável. No entanto, grande parte desse aumento se concentrou na capital fluminense. De acordo com a Prefeitura do Rio, a cidade recebeu 12,5 milhões de visitantes, dos quais 2,1 milhões eram estrangeiros. A Riotur atribui a alta a uma sequência de grandes eventos que ocorreram na cidade. O Visit Rio, por sua vez, tem como missão atrair turistas e organizar eventos, o que indica que o sucesso no turismo não pode ser monopolizado pelo governo estadual.
Desafios na Frente Fiscal e Administrativa
No entanto, quando o assunto é a saúde fiscal do governo, as notícias são menos otimistas. A adesão ao Programa de Recuperação Fiscal, embora celebrada, parece mais uma medida de emergência do que uma conquista administrativa. O orçamento aprovado para 2026 apresentou um déficit previsto de R$ 18,93 bilhões, enquanto a Alerj estimou uma renúncia fiscal de R$ 24,14 bilhões. Nesse contexto, o programa surge mais como um remédio para a falta de correção estrutural das contas do estado do que um sinal de uma gestão fiscal eficaz.
Segurança Pública: Uma Parceria Complicada
Na área da segurança, Castro tentou firmar uma imagem de firmeza, com a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, que foi apresentada como a maior ação policial da história do estado, resultando em 93 fuzis apreendidos e 81 prisões. No entanto, os dados sugerem uma realidade mais complexa. Um estudo do GENI/UFF revelou que, em 2024, cerca de 34,9% da população da Região Metropolitana do Rio estava sob controle ou influência de grupos armados, afetando mais de 4 milhões de pessoas. Além disso, a pesquisa Sonhos da Favela 2026 mostrou que 36% dos entrevistados não confiavam em nenhuma instituição para proteção contra a violência, e 47% desejavam apenas a liberdade de ir e vir com segurança. Apesar da operação ter se tornado um símbolo de ação, não conseguiu alterar a percepção de crescimento do poder das facções e a sensação de insegurança.
Implicações Políticas e Crises Internas
O desgaste político, por sua vez, foi um dos aspectos mais críticos do governo. O caso Ceperj dominou a atenção no final do mandato, com o TSE revisitando julgamentos que poderiam levar à cassação dos diplomas de Cláudio Castro e outros integrantes de seu governo, devido a supostos abusos de poder nas eleições de 2022. A situação se complicou com a percepção de que o governador estava cada vez mais submisso à Alerj. O reeleito Rodrigo Bacellar, por exemplo, conquistou um apoio unânime histórico para presidir a Casa, enquanto o ministro Luiz Fux, do STF, suspendeu partes de uma lei estadual que Castro havia sancionado, gerando a impressão de um governo vulnerável aos arranjos do Parlamento.
Transporte e Saneamento: Promessas Não Cumpridas
Na área de transportes, o saldo é igualmente decepcionante. Em quase seis anos de governo, Cláudio Castro não conseguiu inaugurar novas linhas de metrô, mantendo apenas as linhas 1, 2 e 4 em operação. A única novidade significativa foi a retomada das obras da estação Gávea, que estavam paradas havia uma década e só deverão ser concluídas em 2028. A crise na SuperVia também se somou às dificuldades, pois a concessionária permanece em recuperação judicial e o governo foi forçado a organizar a transição para um novo consórcio em 2026. Promessas de melhorias na mobilidade urbana ficaram sem resultados concretos.
No setor de saneamento, a situação é ambígua. A concessão da antiga Cedae arrecadou R$ 22,7 bilhões em outorgas, acompanhada da promessa de R$ 23 bilhões em investimentos futuros. No entanto, do ponto de vista político, esses recursos não se traduziram em um aumento significativo de obras associadas ao governo de Castro. A sensação é de que, embora a venda tenha sido bilionária, o retorno político e estrutural para o estado não foi proporcional. Por outro lado, a Águas do Rio já investiu R$ 5,1 bilhões em melhorias, e em São Gonçalo, a primeira etapa da coleta em tempo seco tem evitado o despejo de 3,5 milhões de litros de água contaminada na Baía de Guanabara diariamente. Enquanto houve avanços operacionais, o legado político não correspondeu às expectativas criadas.

