A Gastronomia Brasileira em Alta em Portugal
Nos últimos anos, Portugal tem se tornado um verdadeiro palco para a riqueza da gastronomia brasileira. De pratos de rua inovadores a refeições sofisticadas, a culinária do Brasil é cada vez mais reconhecida nas terras lusitanas. Diferente dos tradicionais rodízios de carne, que por muito tempo representaram a comida brasileira em Portugal, hoje é comum encontrar em restaurantes locais, pratos como a moqueca de camarão, preparada com azeite de dendê e servida em panelas de barro. Essa iguaria, que possui raízes africanas e foi consolidada na Bahia, ganha um novo formato nas mãos do chef José Avillez no seu restaurante Cantinho do Avillez, onde a Moqueca do Mar combina saborosos camarões com corvina e um toque especial de amendoim.
Comida: Memória e Herança Cultural
A cozinha brasileira ganha destaque também pelas mãos do chef Kiko Martins, um ícone da gastronomia em Lisboa, conhecido por sua ousadia. Em seu restaurante Boteco, ele traz um cardápio repleto de delícias brasileiras como dadinhos de tapioca e feijoada. Filho de pai português e mãe pernambucana, Kiko sempre buscou honrar suas raízes. Com uma infância no Rio de Janeiro, ele se propõe a apresentar a verdadeira essência da culinária do Brasil aos portugueses.
Além de Kiko, Lizandra Almeida, uma chef sergipana em ascensão, também tem conquistado seu espaço. Após estudar no prestigiado Le Cordon Bleu no México e trabalhar em restaurantes renomados em São Paulo, ela se mudou para Lisboa, onde se destacou como uma das finalistas do prêmio Mesa Marcada, que celebra os novos talentos da gastronomia em Portugal. Com apenas 31 anos, Lizandra revela seu amor pela cozinha, especialmente pela técnica de defumação, que a conquistou desde os tempos em que estava em São Paulo. Ela compartilha suas experiências, revelando que enfrentou desafios ao se inserir em um ambiente predominantemente masculino, onde frequentemente era vista como a pessoa responsável apenas pelas sobremesas.
A História da Culinária Luso-Brasileira
A relação entre Brasil e Portugal na gastronomia é marcada por um intercâmbio histórico que remonta à época colonial. Durante mais de três séculos, os hábitos alimentares no Brasil passaram por profundas transformações, com a introdução de ingredientes indígenas como a mandioca e africanos como o azeite de dendê. A culinária portuguesa influenciou significativamente essa mistura, trazendo suas técnicas de fritura e doces açucarados, que se tornaram parte do paladar brasileiro com a chegada da família real.
O sociólogo e historiador Gilberto Freyre, em sua obra Casa Grande e Senzala, argumentava que a influência da culinária portuguesa era mais visível no litoral brasileiro, enquanto a culinária africana dominava na Bahia, e a indígena, nas regiões norte do país. Já na década de 1960, o respeitado folclorista Luís da Câmara Cascudo, em sua obra História da Alimentação do Brasil, destacou que a riqueza do patrimônio culinário brasileiro se baseava mais na miscigenação entre as diferentes tradições alimentares do que no regionalismo.
Um dos pratos mais emblemáticos, a feijoada, possui origens no cozido português, que foi adaptado no Brasil com a utilização do feijão preto. De acordo com Câmara Cascudo, a feijoada como a conhecemos só foi consolidada no século XIX, sendo posteriormente eleita como prato nacional pelos modernistas, que celebraram a mistura de influências portuguesas, africanas e indígenas na formação da identidade brasileira.
Construindo a Identidade Gastronômica Brasileira
Ricardo Maranhão, historiador e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, frequentemente ressaltava que a identidade da gastronomia brasileira ainda está em desenvolvimento, e que, por muito tempo, houve uma valorização excessiva das influências estrangeiras em detrimento da nossa própria cozinha. Ele enfatizava a importância de destacar as ricas tradições culinárias do Brasil, como a mineira, a amazônica, a afrobrasileira da Bahia, além das influências do sertão nordestino e do centro-oeste.
“A gastronomia é um aspecto fundamental da nossa identidade, assim como o samba e a arquitetura barroca”, afirma Carlos Alberto Dória, sociólogo especializado em cultura culinária. A rica tapeçaria gastronômica do Brasil continua a se expandir, refletindo não apenas as tradições, mas também as inovações que surgem a cada dia.

