Uma Narrativa Sobre Zuenir Ventura
O documentário ‘Mestre Zu’, dirigido por Zelito Viana, apresenta uma imersão na vida do renomado jornalista e escritor Zuenir Ventura. Diferente do que se poderia imaginar, a ideia para o projeto não partiu do biografado. Tudo começou com a iniciativa da filha, Elisa Ventura, que plantou a semente desse tributo à trajetória de seu pai. A produção, inicialmente conduzida pelo cineasta Marcos Vinicius, foi interrompida por sua morte durante a pandemia, e a responsabilidade passou a Zelito após uma conversa casual entre Elisa e sua esposa, a produtora Vera de Paula.
“A proposta era mostrar a onipresença de Zuenir nas últimas décadas”, explica Elisa. “Ao me aprofundar na pesquisa, percebi como ele esteve presente em todos os grandes acontecimentos, sempre atuando de forma intensa, além de ser um simples observador. A sensibilidade de Zelito foi fundamental para conectar esse peso histórico com os relatos engraçados que os dois compartilham.”
As Raízes de um Grande Jornalista
O documentário também revisita as dificuldades enfrentadas pela família Ventura em Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Desde a infância, Zuenir sempre foi um estudioso. Contudo, ele cresceu em um lar sem livros ou jornais. Seu acesso à educação foi garantido pela mãe, que lavava batinas em troca de uma bolsa na escola de padres. O menino que sonhava em ser padre logo começou a trabalhar com seu pai, pintor de paredes, aos 11 anos.
As experiências de Zuenir foram diversas: ele atuou como contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Durante a faculdade, trabalhou como arquivista noturno na Tribuna de Imprensa, um jornal sob a direção de Carlos Lacerda. Em 1956, Zuenir teve a oportunidade de escrever um artigo sobre o escritor francês Albert Camus, seu ídolo. Essa chance foi um divisor de águas, e sua atuação fez surgir a lenda de que o contínuo do arquivo era um verdadeiro gênio. “Não era verdade: eu não era nem contínuo, nem gênio”, relembra Zuenir em uma entrevista dos anos 1980, que foi resgatada pelo documentário.
Uma Carreira Ilustre no Jornalismo
Após o sucesso do artigo, Zuenir recebeu o convite para integrar a redação da Tribuna, dando início a uma carreira que o levaria a importantes veículos de comunicação, como o Correio da Manhã e revistas renomadas como Fatos & Fotos, O Cruzeiro e Visão. Neste último, trabalhou ao lado de Vladimir Herzog, que foi torturado e assassinado pela ditadura em 1975. Em 1985, Zuenir foi convidado a reformular o caderno de cultura do Jornal do Brasil, onde também ajudou a criar o inovador caderno literário Ideias.
Heloísa Teixeira (1939-2025), figura importante na narrativa, destacou no filme que Zuenir se tornou um dos principais jornalistas culturais do Rio de Janeiro. Uma de suas contribuições marcantes foi a publicação anual de balanços da cena cultural carioca. A produtora Guguta Brandão ressalta que Zuenir foi responsável por apresentar ao público brasileiro figuras até então desconhecidas, como a ensaísta Susan Sontag e o filósofo Edgard Morin.
Um Legado de Reflexão e Humor
Joaquim Ferreira dos Santos, que colaborou com Zuenir na Veja e no Jornal do Brasil, afirma: “Zuenir é um mestre raro que consegue equilibrar a cultura sofisticada com um jovem humorista sempre irreverente. Trabalhar com ele foi uma experiência de aprendizado e diversão.” Mesmo sendo um dos grandes nomes do jornalismo, Zuenir sempre privilegiou as áreas de cultura e comportamento em vez das editorias consideradas de maior prestígio, como política. Sua habilidade em criar pautas a partir das pequenas nuances urbanas e sua generosidade em incentivar o crescimento dos colegas são características que o destacam.
O documentário revela como Zuenir também soube identificar e analisar as fraturas sociais e políticas do Brasil. Em seu livro “1968: o ano que não terminou”, ele documenta o auge da repressão durante a ditadura militar e os movimentos de resistência que moldaram uma geração. Em “Cidade partida”, ele lança luz sobre a violência na favela de Vigário Geral, após a tragédia que resultou na morte de 21 pessoas, além de abordar o surgimento do funk carioca como uma importante expressão cultural e os movimentos pela paz, como o Viva Rio.

