Cantora Comemora 20 Anos de Carreira com Show Retrospectivo
Surpreendentemente, não me deixei levar imediatamente pela sonoridade única de Céu. Em 2005, quando a talentosa cantora e compositora paulistana lançou seu álbum de estreia, intitulado “Céu”, não entrei na onda dos que aclamaram esse disco, que se tornou um marco na mídia e na cena musical independente brasileira, que começava a se estabelecer no país desde os primórdios dos anos 2000.
Confesso que a emissão vocal da artista não me conquistou a princípio, e o repertório, cuidadosamente produzido por Beto Villares, não me seduziu. Foi somente a partir do seu segundo álbum, “Vagarosa” (2009), que comecei a prestar mais atenção, atraído pelas nuvens de dub que envolviam suas melodias.
Independentemente dos meus gostos pessoais, Céu continuou sua trajetória musical com autenticidade, sempre buscando se renovar a cada novo projeto. O tempo passou e, em 2025, o álbum “Céu” completa 20 anos, levando a cantora a criar um show inédito e embarcar em uma turnê pelo Brasil para celebrar as duas décadas de um disco que lhe deu notoriedade e direção na carreira.
O espetáculo retrospectivo foi apresentado na casa Vivo Rio na noite de ontem, 11 de abril, durante o quarto e último dia do Queremos! Festival. Rebobinando as músicas de um álbum lançado há 21 anos, a cantora destacou no palco que, em 2005, o público carioca a recebeu “de braços abertos, como os do Cristo Redentor”.
Céu foi a abertura de uma programação que tinha, na sequência, apresentações de Fernanda Abreu, do grupo britânico Soul II Soul e de Gaby Amarantos, que animou a plateia com o show “Rock doido”.
Vale ressaltar que meu objetivo ao comparecer ao encerramento do Queremos! Festival era acompanhar a estreia do show de Fernanda Abreu, que celebra os 30 anos do álbum “Da Lata” (1995). No entanto, cheguei cedo e, por isso, pude assistir ao show de Céu, que ainda não havia visto desde sua estreia no Circo Voador (RJ) em outubro do ano passado. Fiquei agradavelmente surpreso com a apresentação no Vivo Rio.
Sob a direção artística de Luiza Lian, Céu deixou uma impressão positiva com o retorno do show “Céu 20” – uma versão mais curta em relação à apresentação do Circo Voador, adaptada ao tempo disponível no festival. A cantora contou com uma banda talentosa, composta pelos músicos Leonardo Mendes (guitarra), Lucas Martins (baixo), Pedro Lacerda (bateria), Sthe Araujo (percussão e vocais) e Zé Ruivo (teclados).
Em um cenário envolvente, repleto de projeções, Céu iniciou o espetáculo com a música “Lenda” (Céu, Alec Haiat e Graziella Moretto, 2005), seguida por “Malemolência” (Céu e Alec Haiat, 2005), que foi introduzida pelo toque delicado do cavaquinho de Lucas Martins e enriquecida com uma citação do samba “Mora na Filosofia” (Monsueto Menezes e Arnaldo Passos, 1955). Olhando para o seu passado, Céu também trouxe a emoção de “Roda” (Céu e Beto Villares, 2005) ao público.
Antes de interpretar “Rainha” (Céu, 2005), a artista comentou que, como ocorre com todo primeiro disco, o álbum “Céu” foi “carregado de referências e reverências”. “Modernizar o passado é uma evolução musical”, afirmou, citando uma famosa frase de Chico Science em seu “Monólogo ao pé do ouvido” (1994).
Após reviver canções como “Bobagem” (Céu, 2005) e “10 Contados” (Céu e Alec Haiat, 2005), Céu caprichou no bis, apresentando uma faixa de cada álbum lançado após seu disco de estreia. Para encerrar, ela homenageou sua obra-prima, “Tropix” (2016), com duas composições marcantes, “A Nave Vai” (Jorge Du Peixe, 2016) e “Varanda Suspensa” (Céu e Hervé Salters, 2016), encerrando assim um roteiro coeso e emocionante.

