Desafios e Esperanças na Combate ao HIV
No início de 2026, o Brasil recebeu uma notícia promissora na luta contra o HIV. A aprovação do lenacapavir pela Anvisa, um medicamento injetável que promete quase 100% de eficácia na prevenção do vírus, abre novas possibilidades. Entretanto, a realidade do seu custo elevado representa um desafio significativo ao acesso da população. Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids, enfatiza que a falta de informação sobre a profilaxia pré-exposição (PrEP) ainda é uma barreira crítica, especialmente entre profissionais de saúde. O medicamento, desenvolvido pela Gilead Sciences, é uma alternativa à PrEP tradicional, que geralmente é oferecida na forma de comprimidos diários.
Embora os comprimidos sejam eficazes, sua adesão é difícil para muitos. À medida que a necessidade de opções diversificadas de prevenção se torna evidente, é essencial explorar soluções que atendam a diferentes necessidades e preferências dos pacientes. Terto aponta que a desistência do tratamento oral pode ultrapassar 40%, o que torna imperativo desenvolver métodos que possam ser mais facilmente integrados ao cotidiano das pessoas.
Acesso e Ignorância sobre a PrEP
No Brasil, a PrEP está disponível para qualquer pessoa sexualmente ativa no Sistema Único de Saúde (SUS), um passo importante para a saúde pública. No entanto, o acesso ainda é limitado em diversas regiões, com poucos centros de saúde oferecendo esse serviço. Em algumas áreas urbanas, a PrEP pode ser retirada em locais convenientes, como máquinas em estações de metrô, mas a falta de conhecimento sobre a PrEP é alarmante. Terto enumera que muitos profissionais de saúde ainda têm informações desencontradas sobre o que é a PrEP e como ela pode beneficiar pacientes.
Ele acrescenta que é crucial aumentar a conscientização sobre a PrEP, especialmente entre os jovens, que frequentemente enfrentam barreiras sociais e políticas que dificultam o diálogo sobre saúde sexual. “O conservadorismo atual impede a discussão aberta sobre a sexualidade e a saúde reprodutiva, fazendo com que muitos que poderiam se beneficiar da PrEP permaneçam desinformados”, diz Terto.
Custo do Lenacapavir e Políticas Públicas
O custo do lenacapavir nos Estados Unidos, que ultrapassa 28 mil dólares anuais, torna sua adoção como política pública no Brasil um desafio viável apenas no plano teórico. Terto destaca que a produção do medicamento não é, em si, cara, mas o preço inflacionado pelas empresas detentoras da patente é um entrave. “Poderíamos oferecer o lenacapavir a um preço mais justo se houvesse disposição para negociação por parte das indústrias e uma ação proativa do governo”, afirma.
Enquanto isso, a discussão sobre a quebra de patentes e a possibilidade de produção local nos laboratórios nacionais permanece em pauta. A história do Brasil, que já havia avançado com a quebra de patentes no passado, ainda é uma referência importante na luta contra o HIV. Apesar de o país ter enfrentado retrocessos na saúde pública, existe esperança de que acordos semelhantes possam ser estabelecidos novamente.
Cenário Atual da Epidemia de HIV
Os dados mais recentes revelam um aumento alarmante no número de novos casos de HIV, especialmente entre jovens, indicando que a epidemia ainda não está sob controle. A taxa de mortalidade relacionada ao HIV no Brasil continua alta, com cerca de 10 mil óbitos anuais. Este cenário crítico é agravado pela diminuição das campanhas de conscientização e pela falta de informação sobre métodos preventivos.
“Estamos enfrentando um paradoxo, pois temos ferramentas eficazes, mas muitos ainda não têm acesso a elas devido à falta de informação e estrutura. Precisamos urgentemente desmistificar o HIV e a Aids, e combater o estigma que impede a busca por tratamento”, destaca Terto.
Futuro da Prevenção e Eliminação do HIV
A meta de eliminar a transmissão do HIV e da Aids até 2030 é vista como otimista, considerando o cenário atual. “Embora a iniciativa seja admirável, os números atuais não indicam um caminho viável para a realização desse objetivo”, diz Terto. Contudo, se a produção local do lenacapavir se tornar uma realidade e os custos forem reduzidos, a perspectiva de controlar a epidemia se tornaria mais palpável.
Com a incorporação de novos tratamentos e a realização de campanhas educativas, há potencial para diminuir drasticamente o número de novas infecções e, quem sabe, eliminar a Aids como um problema de saúde pública em grupos vulneráveis. A luta contra o HIV no Brasil exige ações coordenadas que ultrapassem as barreiras da informação e do acesso, um desafio que deve estar no centro das políticas de saúde pública nos próximos anos.

