Crise Política nas Ilhas Canárias
Recentemente, as Ilhas Canárias, parte do território espanhol, vivenciaram uma tensão política em decorrência da decisão do governo federal espanhol de autorizar o desembarque de um navio com passageiros suspeitos de hantavírus. Inicialmente, o governo local se posicionou contrariamente à medida, refletindo a preocupação com a saúde pública em meio ao surto.
O cruzeiro MV Hondius, que partiu de Ushuaia, na Argentina, no início de abril, tinha como destino original Cabo Verde, na África. No entanto, ao ser informadas sobre os casos de hantavírus a bordo, as autoridades canárias decidiram não receber os passageiros, o que resultou em uma crise de confiança entre governos.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), três pessoas faleceram e outras oito estão com suspeita de contaminação pelo vírus. Diante da situação alarmante, o governo espanhol, após apelo da OMS, concordou em acolher os passageiros nas Ilhas Canárias, alegando que Cabo Verde não possuía a infraestrutura adequada para gerenciar a situação. “As Ilhas Canárias são o local mais próximo com a estrutura necessária. A Espanha possui uma obrigação moral e legal de auxiliar essas pessoas, incluindo cidadãos espanhóis”, declarou o ministério da saúde do país.
Conflito entre Governos
No entanto, essa determinação não foi bem recebida pelo governo das Ilhas Canárias. O presidente Fernando Clavijo expressou sua insatisfação em uma entrevista à rádio COPE, afirmando que “esta decisão não se baseia em critérios técnicos e não há informações suficientes para garantir a segurança do público”. As palavras de Clavijo provocaram reações negativas entre as autoridades federais, que consideraram a posição do líder canário irresponsável ao disseminar medo na população.
Contudo, na quinta-feira (7), um diálogo entre Clavijo e representantes do governo federal gerou um clima de alívio. O governo federal informou que o navio não irá atracar no porto, mas ficará ancorado próximo ao local. “Consideramos isso uma excelente notícia, pois reduz as potenciais fontes de infecção. Assim, a evacuação dos passageiros ocorrerá através de um navio-base, que poderá transportá-los diretamente ao aeroporto”, afirmou Clavijo à imprensa local.
Expectativas de Desembarque
A aproximação entre as autoridades canárias e federais é crucial neste contexto. Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisador na Universidade Harvard, ressaltou a importância dessa colaboração. “Embora o governo federal controle o espaço marítimo, o governo canário possui autoridade sobre a infraestrutura terrestre e a segurança pública, podendo, assim, exigir que a operação não ocorra no cais”, explicou Brustolin.
Apesar da resolução do impasse político, a população local segue preocupada. Na sexta-feira (8), ocorreram manifestações em Santa Cruz, na região do porto de Tenerife, onde cidadãos se manifestaram contra a chegada do navio. Cartazes exibiam mensagens como “Isto não ajuda. Isto é um trabalho malfeito”.
Preparativos para o Desembarque
O desembarque do MV Hondius está programado para ocorrer neste domingo, na manhã do dia 10. Segundo o governo espanhol, o local de ancoragem será isolado, sem qualquer contato com a população local. Após a chegada, as 147 pessoas a bordo, entre passageiros, tripulação e médicos, passarão por um período de quarentena antes de serem repatriadas.
Informações do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ECDC) indicam que, até o momento, nenhum passageiro apresenta sintomas da doença. As transferências dos passageiros serão realizadas por botes infláveis, que os levarão a aeronaves particulares organizadas pelos respectivos governos. Os 14 cidadãos espanhóis presentes a bordo permanecerão na Espanha e serão trasladados para o Hospital Gómez-Ulla, em Madri, onde também ficarão em quarentena.

