Fatores de Risco e Saúde Mental
Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revela que jovens LGBTQIA+ têm um risco até 2,3 vezes maior de usar drogas e começam a consumir substâncias mais cedo. Publicada na revista científica International Review of Psychiatry, a pesquisa aponta que fatores como discriminação, preconceito e medo de violência impactam negativamente a saúde mental dessa população.
Os dados foram coletados de 1.492 jovens das cidades de São Paulo e Porto Alegre, participantes do Brazilian High-Risk Cohort Study for Mental Health Conditions (BHRC). Este estudo de longo prazo, que começou em 2010, analisa a saúde mental e seus fatores ao longo dos anos. Os pesquisadores focaram nas informações coletadas entre 2017 e 2018, quando os jovens tinham entre 9 e 21 anos, com média de 18 anos.
Os participantes responderam a questionários que abordavam orientação sexual, identidade de gênero e uso de quatro substâncias psicoativas: álcool, tabaco, maconha e cocaína. Dentre os jovens analisados, 247 se identificavam como LGBTQIA+. Ao examinar os dados, os pesquisadores notaram taxas de consumo superiores para todas as drogas, exceto álcool, entre a comunidade LGBTQIA+.
Dados Alarmantes sobre o Uso de Substâncias
Em relação ao uso de tabaco, 48% dos jovens LGBTQIA+ relataram consumo, em comparação com 37% entre heterossexuais cisgêneros. No que diz respeito à maconha, os índices mostraram 40% contra 27%, e para a cocaína, 7,4% entre LGBTQIA+ e 3,6% entre heterossexuais. Para o consumo de álcool, as porcentagens foram de 85,9% e 83,7%, com diferenças estatisticamente insignificantes.
A pesquisa estima que a população LGBTQIA+ tem 66% mais chances de usar tabaco, 94% mais chances de utilizar maconha e mais de duas vezes (2,28 vezes) a probabilidade de consumir cocaína no período em questão. Caio Petrus Figueiredo, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria da USP e autor do estudo, afirma que a pesquisa é pioneira no Brasil e revela a vulnerabilidade dessa comunidade.
Desigualdade entre Gêneros na Saúde Mental
O risco de uso de drogas é ainda mais acentuado entre mulheres LGBTQIA+ cisgênero, que iniciam o consumo de substâncias entre 10 e 15 anos, enquanto as mulheres heterossexuais cisgênero começavam entre 13 e 17 anos. As bissexuais, especificamente, apresentaram taxas alarmantes: 56% relataram uso de maconha e 9,2% de cocaína.
Tauana Mendonça, doutoranda em Psiquiatria pela UFRGS, destaca a “penalidade bissexual”, ou seja, a bifobia que afeta a saúde mental das mulheres bissexuais, dificultando sua aceitação tanto na sociedade quanto na comunidade LGBTQIA+. Isso corrobora os dados internacionais que revelam que mulheres bissexuais enfrentam piores condições de saúde mental em comparação às suas contrapartes LGBTQIA+.
Estudos Regionais e Nacionais
A problemática na saúde mental da população LGBTQIA+ tem ganhado destaque na literatura científica. Um estudo realizado em 2023 com 4.610 estudantes de 14 a 19 anos na Grande Vitória encontrou um aumento de 54% na experimentação de drogas e 76% de uso cotidiano entre jovens LGBTQIA+. Outros estudos apontam uma chance maior de uso de substâncias, com um estudo americano evidenciando uma probabilidade 4,63 vezes maior de uso de heroína nessa população.
O Papel do Preconceito e da Rejeição
Embora os estudos não analisem as causas específicas do uso de drogas, especialistas indicam que a marginalização de grupos como a população LGBTQIA+ contribui para esse cenário. Tauana ressalta o conceito de “estresse de minorias”, que se refere aos estressores crônicos oriundos da discriminação, preconceito e medo de violência. Essa condição é reconhecida como um fator que exacerba problemas de saúde mental.
Um levantamento nacional realizado pelo Instituto Cactus em 2022 apontou que a saúde mental de indivíduos homossexuais e bissexuais se encontra consideravelmente abaixo da média dos heterossexuais, o que evidencia uma necessidade urgente por ambientes de acolhimento para essas comunidades.
A Necessidade de Intervenção e Inclusão
A solução para reverter esse cenário passa pela criação de ambientes acolhedores e interventivos. Tauana defende a integração de temáticas sobre saúde mental e uso de drogas em programas escolares e iniciativas que abranjam a comunidade. O autor do estudo da USP, Caio Figueiredo, reforça a necessidade de políticas públicas inclusivas que considerem as especificidades da população LGBTQIA+.
Um estudo nos EUA também apontou que fatores como apoio familiar, orgulho e pertencimento, além de acesso à educação e saúde, estão associados a uma menor probabilidade de uso de substâncias. Promover um olhar mais atento e inclusivo é essencial para garantir melhor qualidade de vida e saúde mental para jovens LGBTQIA+.

