menopausa: Impactos no sono, Trabalho e saúde mental das Mulheres
A menopausa, um tema ainda pouco debatido no Brasil, exerce influência significativa sobre o sono, as responsabilidades profissionais e a saúde mental das mulheres. Aproximadamente 70% delas experimentam sintomas como insônia e oscilações de humor, o que pode comprometer seu desempenho no trabalho. Especialistas ressaltam que essa fase pode ser uma oportunidade para reavaliar prioridades e descobrir um “pico criativo tardio”. O entendimento e a comunicação sobre este período são cruciais para suavizar o sofrimento e facilitar uma reorganização pessoal.
Infelizmente, a menopausa continua sendo um tabu, raramente abordada nas conversas cotidianas, mesmo sendo uma transição natural na vida da mulher. Estudos apontam que os efeitos dessa fase são amplos e podem afetar profundamente a qualidade de vida.
O que Acontece Durante a Menopausa?
De acordo com a The Menopause Society, cerca de 70% das mulheres enfrentam sintomas durante a transição menopausal, como ondas de calor, distúrbios no sono e variações de humor. Em alguns estudos, essa porcentagem pode chegar a até 80%. No Brasil, dada a crescente proporção de mulheres acima dos 50 anos, o tema se torna ainda mais relevante, embora pouco discutido em contextos sociais, profissionais e familiares.
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A psicanalista Camila Camaratta comenta que esse silêncio em torno do assunto contribui para um sofrimento muitas vezes despercebido. “Há um descompasso claro: o corpo muda, mas as exigências permanecem as mesmas. Espera-se que as mulheres mantenham produtividade e estabilidade emocional, ignorando as transformações que elas estão enfrentando”, afirma.
Alterações no Sono e Seus Efeitos
Um dos sintomas mais frequentes durante a perimenopausa é a alteração no padrão de sono. Isso ocorre devido à diminuição gradual da progesterona, hormônio que possui um efeito calmante sobre o sistema nervoso e regula o descanso. Com essa mudança hormonal, o sono se torna mais leve e fragmentado, resultando em despertares noturnos frequentes. Muitas mulheres relatam se sentir cansadas mesmo após uma noite de sono completa. “Quando acordam, muitas não conseguem voltar a dormir e acabam interpretando isso como ansiedade ou fragilidade emocional, quando, na verdade, existe um fator biológico significativo em jogo”, explica Camila.
Compreender essa base neuro-hormonal pode alterar a maneira como uma mulher percebe seu próprio corpo. Camila acrescenta: “Quando a mulher entende que não é uma falha pessoal, sente um alívio imediato e começa a se ouvir com mais atenção”. Essa nova percepção pode facilitar uma mudança nas relações consigo mesma que transcende os sintomas físicos.
Reflexão e Reavaliação de Prioridades
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Embora o climatério não receba a devida atenção, ele muitas vezes coincide com um período de profunda reflexão sobre escolhas e prioridades de vida. Muitas mulheres, durante essa fase, lidam com responsabilidades profissionais e familiares que trazem à tona questões que antes eram ignoradas. “Na clínica, não escuto apenas relatos sobre mudanças no corpo; surgem também perguntas fundamentais: o que ainda vale a pena sustentar? O que deve ser deixado para trás?”, destaca Camila.
Esse processo de reavaliação pode levar a alterações significativas na maneira como as mulheres lidam com seu tempo, desejos e investimentos emocionais. “Há uma transformação importante: antes, muitas decisões eram orientadas por expectativas externas. Nesse momento, começa a se formar uma seleção mais clara sobre o que realmente importa”, conclui a especialista.
Menopausa e Criatividade
Algumas pesquisas sugerem que essa fase da vida pode ser marcada por um aumento na capacidade de integrar experiências e gerar criatividade, fenômeno conhecido como “pico criativo tardio”. O psicanalista Erik Erikson descreve esse período como generatividade: a necessidade de criar, produzir e compartilhar algo significativo com o mundo, não apenas no âmbito da maternidade, mas também por meio de ideias, projetos e contribuição social.
Exemplos de figuras literárias como Clarice Lispector, que escreveu “A Hora da Estrela” por volta dos 50 anos, e Simone de Beauvoir, que aprofundou suas reflexões sobre envelhecer na maturidade, ilustram essa capacidade criativa que pode emergir nesse momento.
Escuta e Reorganização Pessoal
Segundo Camila, a menopausa exige uma mudança de atitude em relação ao autocuidado emocional. “Não há um manual para lidar com a menopausa, mas existe um processo que requer tempo, reflexão e uma escuta mais sincera de si mesma”, afirma. Ela destaca que, nesse período, as respostas precisam vir de dentro, e não de fontes externas. “Antes, havia um corpo que respondia a ciclos. Agora, há um corpo que pede atenção e escuta”, conclui.
Mais do que um período marcado por sintomas físicos, a menopausa pode representar uma reorganização interna, onde as expectativas externas perdem a relevância, dando espaço para escolhas mais conscientes e alinhadas com a realidade emocional de cada mulher. “Embora essa fase não seja fácil, pode ser um momento de autoconhecimento profundo. Para muitas mulheres, é justamente nesse ponto que algo verdadeiramente novo pode surgir”, finaliza Camila.

