O disco que nasceu da dor e da reflexão
O mais recente disco do padre Fábio de Melo, intitulado “O beijo que vós me nordestes”, é um projeto que surgiu em meio a um momento delicado de sua vida: a depressão. O canto da música “Quem me levará sou eu”, de Dominguinhos, funcionou como um divisor de águas, ajudando-o a se conectar com mensagens de esperança e autoconhecimento. Para o padre, a solução para seus problemas estava dentro dele, e essa canção o guiou na criação do novo álbum.
O trabalho, que será lançado na sexta-feira, conta com canções de grandes nomes como Chico César e Luiz Gonzaga, além da participação de artistas renomados como Gilberto Gil, Milton Nascimento, Mônica Salmaso, Maria Rita e Elba Ramalho. Em entrevista ao “Conversa Vai, Conversa Vem”, videocast do GLOBO que será exibido hoje às 18h, no YouTube e Spotify, Fábio de Melo compartilha suas reflexões sobre a espiritualidade e a música.
Uma ode à cultura nordestina
Questionado se o álbum é uma homenagem ao Nordeste, o padre confirma: “Sim! Embora meu trabalho na música tenha começado com um disco pela Som Livre, já havia um percurso sólido dentro da Igreja. A música me permitiu viajar e conhecer diversas partes do Brasil, e o Nordeste me proporcionou uma experiência única, onde pude sentir a generosidade e acolhimento das pessoas, que fazem parte de uma riqueza espiritual incomensurável. Essa conexão foi fundamental para o desenvolvimento do meu trabalho e da minha espiritualidade, poço de emoções que busco expressar em minhas canções.”
Ele ainda completa: “Sou mineiro, mas me sinto um pouco nordestino também. A arte, para mim, é o primeiro passo para a espiritualidade, uma vez que antes mesmo de conhecer a religião, eu já estava imerso na beleza e na verdade que a arte proporciona.”
Música e espiritualidade
Sobre a relação entre música e religião, Fábio de Melo afirma que a música popular brasileira (MPB) tem sido uma parte constante de sua vida. “Fui criticado por cantar Luiz Gonzaga, mas não vejo a música religiosa apenas como aquela que é tocada nas igrejas. A música tem o poder de reconectar as pessoas e expressar sentimentos profundos”, argumenta. Para ele, a arte pode ser uma experiência religiosa, uma forma de ligar as emoções e a espiritualidade, através da palavra.
Ele reflete sobre a solidão que muitos enfrentam em contextos religiosos e ressalta a importância da conexões genuínas. “Em muitos ambientes religiosos, não encontrei a espiritualidade que buscava. Você pode ser religioso, mas a espiritualidade transcende os dogmas e pode ser encontrada na arte, no conhecimento e na filosofia. Muitos dos meus momentos mais profundos de encontro com Deus aconteceram justamente em situações de dor e solidão”, revela.
A fama e seus desafios
Fábio de Melo não hesita em abordar os desafios que a fama trouxe à sua vida. “A fama é uma ilusão que rouba o que há de mais precioso: a espontaneidade. Pode fazer com que você perca o contato com o que realmente ama fazer”, afirma. Ele admite ter caído na armadilha da arrogância em sua jornada e destaca a importância de refletir sobre quem realmente somos, fora das luzes da fama.
Sofrimento e autodescoberta
Ao falar sobre sua luta contra a depressão e a síndrome do pânico, o padre compartilha experiências dolorosas da sua trajetória. Ele menciona a perda de sua irmã e os impactos que isso teve em sua vida. “A dor, em muitos momentos, foi a única coisa que me fez retornar ao meu centro, ao que realmente importa. A luta é sempre interna, e para sobreviver é necessário se reencontrar com quem você realmente é”, desabafa.
A solidão na sociedade atual
Fábio de Melo reflete ainda sobre a epidemia da solidão que afeta a sociedade contemporânea. “Fomos cavando um poço do qual não conseguimos mais sair. As redes sociais, por exemplo, quebraram barreiras de respeito e privacidade, criando um ambiente onde o julgamento se tornou constante”, critica. Para ele, a inconsistência dos vínculos humanos é um reflexo da falta de profundidade nas relações.
O papel da religião e a busca pelo bem
Por fim, o padre discorre sobre a intersecção entre a espiritualidade e a religiosidade. Ele acredita que a verdadeira função da religião deveria ser a promoção do bem e do amor. “Não podemos aprisionar a bondade. Qualquer ser humano, independentemente de sua fé, pode praticá-la. A bondade e a busca por um mundo melhor devem ser universais”, conclui de forma contundente.

