Reconhecimento oficial para uma tradição viva
O Cortejo da Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito, realizado em Guaratinguetá (SP), foi oficialmente inscrito como patrimônio cultural do Brasil. A decisão foi tomada na 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no dia 22 de setembro, no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília (DF). O cortejo agora integra o Livro de Registro das Celebrações, que valoriza rituais e festas de relevância para a vivência comunitária, religiosidade e cultura popular.
Uma tradição que reúne história e fé
Organizado pela Associação Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito de Guaratinguetá (ACSGSBG), fundada em 1992, o cortejo mobiliza cerca de dois mil cavaleiros a cada Domingo de Páscoa. Os participantes, vestidos de branco, percorrem cerca de 20 quilômetros pelas ruas da cidade, divididos em duas filas. Durante o trajeto, há paradas em cemitérios para homenagear cavaleiros falecidos, com estandartes que exibem suas fotografias. Moradores decoram as calçadas e portas com altares, celebrando a passagem da comitiva.
A estrutura do cortejo envolve os mantenas, membros formais da associação responsáveis pela organização e regras do desfile. Além deles, seis clubes agregados participam com uniformes e identidades próprios, junto à Fila de Branco, aberta a cavaleiros sem vínculo fixo, mediante cadastro prévio.
Tropeirismo e devoção afro-católica: raízes do cortejo
Essa manifestação cultural entrelaça duas tradições históricas. O tropeirismo, que marcou a vida rural do Vale do Paraíba, está presente na origem do cortejo. Em 1726, tropeiros e viajantes construíram em Guaratinguetá a Capela de São Gonçalo do Amarante, padroeiro dos viajantes. A devoção afro-católica também faz parte da história: em 1757, pessoas escravizadas instalaram na mesma capela a imagem de São Benedito e criaram a Irmandade de São Benedito dos Irmãos Pretos Cativos da Vila, que preserva até hoje os símbolos do santo.
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Embora não haja registro exato do início do cortejo anual, sua consolidação como prática coletiva data de 1888, integrada à Festa de São Benedito. Em 1948, a celebração já figura no calendário oficial da cidade.
Transformações e continuidade na tradição
Nas décadas seguintes, o cortejo passou por mudanças importantes. Nos anos 1970, a participação feminina foi incorporada, com Vera Aparecida de Paiva França tornando-se a primeira mulher a desfilar montada. Atualmente, o grupo feminino é parte consolidada, e crianças entre 8 e 13 anos participam como mantenas mirins, aprendendo com gerações anteriores.
A fundação formal da Associação, em 1992, marcou a organização da manifestação com estatuto e regras claras, sob a liderança de chefes como Evandro Paiva.
Ritual e simbolismo no cortejo
O ponto alto do cortejo acontece quando o mastro de São Benedito sai da Capela de São Benedito e Santa Cruz, no centro da cidade. Ele é conduzido com a coroa, a bandeira e a imagem do santo, escoltado pela cavalaria até a Igreja do Puríssimo Coração de Maria. O percurso é acompanhado por grupos devocionais, como as Caixas de São Benedito, congadas e moçambiques, que animam a festa com música, dança e canto.
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Na igreja, o mastro é erguido ao som do hino e orações, onde os fiéis deixam bilhetes com pedidos e agradecimentos. Depois, a cavalaria realiza a meia-lua na Praça São Gonçalo, uma manobra que remete às evoluções feitas pelos tropeiros diante da capela.
Tradição que atravessa gerações
A memória do cortejo permanece viva em famílias locais. Geraldo Terra, mantena e Chefe de Honra aos 89 anos, participa desde a década de 1960. Em sua casa, a preparação para o desfile envolve toda a família, incluindo a filha Bilú, que carrega o estandarte de Nossa Senhora Aparecida, cumprindo uma promessa feita a São Benedito.
Luiz Cláudio, mantena há mais de 40 anos, desfilou ao lado do pai e guarda como relíquia a sela usada por quase seis décadas, com intenção de transmiti-la à próxima geração.
Preservação e futuro do cortejo
O reconhecimento pelo Iphan reforça a importância cultural e social do Cortejo da Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito. A celebração não apenas conecta passado e presente, mas também garante a continuidade dessa manifestação que mobiliza a comunidade de Guaratinguetá e atrai interesse pela riqueza do patrimônio cultural brasileiro.

