O Cinema Brasileiro em Ascensão
O cinema nacional vive um dos seus momentos mais vibrantes e emblemáticos no cenário internacional, resultado de uma combinação de políticas públicas eficazes, continuidade institucional e reconhecimento em festivais renomados. Especialistas do setor afirmam que este cenário auspicioso, que se traduz em premiações e a presença em importantes vitrines globais, não é fruto do acaso. Pelo contrário, é o resultado de décadas de investimento e do desenvolvimento de uma política de Estado voltada para o audiovisual.
Leonardo Edde, presidente da RioFilme, ressalta a importância de transformar esse efervescente momento em um ciclo que perdure. “O momento do cinema brasileiro é realmente fantástico. Estamos vivendo um momentum, muito parecido com outros que já tivemos, mas que sempre enfrentaram altos e baixos. O que buscamos agora é que esse momento se estenda ao máximo”, declarou.
Para Edde, a recente sequência de sucessos – que inclui produções notáveis no Oscar, no Globo de Ouro e filmes selecionados para Cannes e Berlim – reflete a diversidade regional e a criatividade do Brasil. “Temos o Rio de Janeiro, com o filme ‘Ainda Estou Aqui’, Pernambuco com ‘O Agente Secreto’, e agora o Brasil se destacando em Berlim com projetos de jovens cineastas. É um verdadeiro mosaico de São Paulo e de todo o Brasil se destacando”, afirmou.
A chave para consolidar essa trajetória de crescimento, segundo Leonardo Edde, reside na continuidade das políticas públicas. “Estamos estruturando uma política pública perene, com ciclos longos, sem interrupções como já vimos em outros períodos da história. Se mantivermos esse ritmo, o cinema brasileiro estará sempre em alta, pois temos realizadores, artistas e produtores excepcionais”, acrescentou.
O reconhecimento que o cinema brasileiro vem conquistando dialoga diretamente com a economia criativa e outros setores, como o turismo e a indústria. “Isso está intrinsecamente ligado. O audiovisual é uma indústria que gera empregos e movimenta a economia”, destacou.
A Importância das Políticas de Incentivo
Em termos de políticas de incentivo, instrumentos como o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e a Lei Rouanet desempenham funções complementares. A Lei Rouanet define segmentos específicos que podem receber apoio por meio de incentivos fiscais, enquanto o FSA é um dos principais mecanismos de fomento, abrangendo todas as etapas da cadeia produtiva, desde o desenvolvimento até a distribuição.
Produções como ‘O Agente Secreto’ e ‘Ainda Estou Aqui’, que conquistaram prêmios recentemente, não utilizaram recursos da Rouanet, pois a lei não financia longas-metragens.
Recentemente, o ator e diretor Wagner Moura se manifestou em defesa da Lei Rouanet, ressaltando a importância de mecanismos de fomento. “Eu não posso explicar a Lei Rouanet para quem ainda não assimilou a Lei Áurea”, ironizou, indicando que a resistência às políticas culturais reflete uma incompreensão histórica sobre o papel do Estado nesse contexto.
Desafios e Oportunidades para o Cinema Brasileiro
Flávia Guerra, crítica de cinema, observa que o reconhecimento internacional do cinema brasileiro, impulsionado por filmes como ‘O Agente Secreto’, gera um impacto que vai além das bilheteiras. “Toda vez que vivemos uma fase positiva como essa, que começou no ano passado e continua, é importante lembrar que isso é fruto de décadas de trabalho e de políticas públicas para o audiovisual”, ressaltou.
Ela também alerta para o desafio de transformar esse prestígio em público nas salas de cinema, especialmente considerando o impacto da pandemia e o crescimento das plataformas de streaming. “Enfrentamos dificuldades em levar o público aos cinemas, mas a boa notícia é que a imagem do filme brasileiro se torna cada vez mais natural nos multiplex”, disse Guerra.
A crítica também citou a fala do diretor Kleber Mendonça Filho durante o Globo de Ouro, que abordou a importância de inspirar jovens a se verem no audiovisual. “Esse clima de ‘Copa do Mundo’ da cultura é fundamental. Ver nossos artistas lá fora inspira a nova geração a enxergar o audiovisual como uma carreira possível”, afirmou.
A Nova Geração em Berlim
A presença brasileira no Festival de Berlim 2026 se fortalece com a seleção de várias produções em diferentes mostras: ‘Feito Pipa’, de Allan Deberton, e ‘Papaya’, de Priscilla Kellen, são exemplos de produções que destacam a nova geração. A variedade de temas e estilos evidencia o potencial do cinema brasileiro para dialogar com o público jovem e abordar assuntos contemporâneos de maneira inovadora.
“Ver filmes brasileiros em Berlim é crucial para garantir a continuidade. Não queremos ser conhecidos apenas por um filme isolado, mas por uma cinematografia rica e diversificada”, afirma Flávia Guerra. Ela menciona que a força de novas abordagens em obras de época e de gênero pode ampliar o alcance do nosso cinema.
O grande desafio agora é transformar o reconhecimento obtido em uma política duradoura e garantir uma presença constante nas salas e festivais. “Quando um filme como ‘O Agente Secreto’ abre portas para o público internacional, ele leva consigo todo o cinema brasileiro”, finaliza Flávia Guerra.

