Revisitando um Capítulo Histórico
No contexto atual de intensa agitação política no Irã, marcado por manifestações contra a República Islâmica, um nome que parecia esquecido volta a ser mencionado nas ruas: o do xá, Mohammad Reza Pahlavi. Nas multidões que clamam pela restauração da monarquia, a expressão “Javid Shah” — viva o xá — ecoa como um grito de resistência contra a teocracia que perdura há mais de quatro décadas. Esse movimento, que rejeita o regime atual, traz à tona a memória da visita oficial do último xá ao Rio de Janeiro, um episódio que agora ressurge com novo significado.
Em 1965, o xá do Irã fez uma visita de Estado ao Brasil, um evento repleto de simbolismo político e econômico. O objetivo era claro: fortalecer laços diplomáticos e comerciais, especialmente no setor industrial. Naquele momento, o Irã buscava se afirmar como uma potência moderna e aliada do Ocidente. Embora Brasília já fosse a capital oficial, o Rio de Janeiro continuava a ser um importante centro social e diplomático, o que justifica a inclusão da cidade na agenda do xá.
Um Encontro de Culturas e Diplomacia
Acompanhado pela imperatriz Farah Pahlavi, uma figura central na modernização cultural do Irã, o casal imperial foi recebido por autoridades brasileiras e participou de compromissos que enfatizavam as aspirações de um Irã em transformação e voltado para a educação e a cooperação internacional. Durante a estadia no Rio, a visita do xá deixou marcas de grande relevância. Um exemplo é a fundação de uma escola em Vila Isabel, inicialmente denominada Colégio Estadual Irã, hoje conhecida como Escola Municipal Francisco Manuel. Esse detalhe, embora pouco lembrado, destaca o gesto concreto de diplomacia que buscou se integrar ao cotidiano carioca.
Outro marco histórico dessa visita foi o encontro do xá com representantes da família imperial brasileira, como os príncipes Dom Pedro Gastão e Dom João Maria de Orléans e Bragança. Esse encontro simbólico, que uniu tradições monárquicas em um contexto contemporâneo, destaca como o Rio de Janeiro sempre foi um palco de interações significativas na história global.
Um Marco Político e Social
A visita de 1965 foi recebida com grande expectativa e celebrada como um marco na presença diplomática do Irã no Brasil. Essa aproximação ampliou os acordos de cooperação entre os dois países e consolidou o Rio como um cenário de destaque na diplomacia internacional, mesmo após a cidade perder o título de capital federal. O glamour e a relevância histórica da visita ainda ressoavam fortemente.
A chegada do xá e da imperatriz ao Rio foi acompanhada de um dispositivo de segurança incomum para a época. Eles desembarcaram no Aeroporto Militar do Galeão, protegidos por uma operação de segurança composta por cerca de cem policiais, organizados em anéis ao redor da comitiva, além de agentes posicionados em pontos estratégicos. O casal seguiu diretamente para o Copacabana Palace, onde uma suíte presidencial foi preparada para sua estadia. A programação ainda incluiu um banquete oficial nos jardins do Palácio Guanabara, sede do governo do Estado da Guanabara, evidenciando a importância atribuída à visita.
Um Eco do Passado no Presente
Seis décadas após essa visita histórica, o nome do xá volta a ser mencionado em debates internacionais. O monarca que andou pelas ruas do Rio como representante de um Irã em busca de modernização agora é lembrado através da figura de seu filho, que se tornou um símbolo de oposição a um regime considerado ultrapassado por milhões de iranianos. O Rio de Janeiro, mais uma vez, aparece como um testemunho silencioso de um momento decisivo na história global.
A cidade, como sempre fez, se conecta às grandes transformações da história, mesmo quando essas mudanças parecem distantes. Ao relembrarmos a visita do xá do Irã, é possível refletir sobre as complexas interações que moldam o cenário político e social contemporâneo, ligando passado e presente de forma significativa. Assim, o Diário do Rio se coloca como um observador atento das dinâmicas globais que reverberam em suas ruas e histórias.

