Relações Políticas e Crise de Liquidez no Master
As declarações de Daniel Vorcaro durante seu depoimento à Polícia Federal trazem à tona a relação próxima que o banqueiro mantinha com figuras influentes do poder e a utilização do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como alicerce para as operações do Banco Master. A instituição enfrenta sérios problemas financeiros, culminando na decisão do Banco Central de a submeter à liquidação extrajudicial, devido à falta de liquidez e suspeitas de fraudes na venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB) que totalizavam R$ 12,2 bilhões.
No relato, Vorcaro indicou que a falta de recursos financeiros comprometeu a operação do banco e admitiu que a solidez do FGC foi fundamental para a realização de negócios, uma prática que, segundo ele, era normal na indústria. Contudo, o banqueiro ressaltou que alterações nas regras relacionadas ao FGC provocaram uma crise inesperada e forçaram o Master a buscar alternativas de captação de recursos no mercado, algo que, segundo ele, pode ter gerado uma campanha orquestrada para prejudicar sua imagem.
O FGC, conhecido como um mecanismo de proteção para investidores em caso de falências bancárias, teve seu papel central destacado nas falas de Vorcaro. Ele alegou que as mudanças nas regras do fundo dificultaram as operações financeiras do banco, que, segundo ele, sempre agiu dentro das normas vigentes. “O nosso modelo de negócios era completamente fundamentado pelo FGC, não havia nada de irregular. Essa era a regra”, declarou Vorcaro.
Além disso, o depoimento revelou que entre 2024 e 2025, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Banco Master, um montante que está sob investigação do Ministério Público, que suspeita de uma gestão fraudulenta nas operações de transferência de recursos. O banqueiro confirmou que mais de R$ 12 bilhões foram utilizados para adquirir carteiras de crédito que não eram do banco e se mostraram sem lastro.
Vorcaro confirmou também ter se reunido com o governador Ibaneis Rocha em diversas ocasiões entre 2024 e 2025, tanto em sua residência quanto na do governador em Brasília. Durante o depoimento, ele foi questionado sobre contatos com outros membros do governo ou do setor público e, além de Ibaneis, afirmou ter apenas se encontrado com autoridades do Banco Central.
Em uma defesa contundente, Vorcaro mencionou que, se realmente tivesse tantas relações políticas como sugerido pelas especulações, não estaria atualmente cumprindo prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica, uma consequência das medidas cautelares impostas pela Justiça. Ele ainda relatou os detalhes de sua prisão no Aeroporto de Guarulhos na noite de 17 de novembro, afirmando que foi surpreendido pela ação e negou qualquer intento de fuga, reiterando que havia informado ao Banco Central sobre sua viagem.
Ainda no depoimento, o banqueiro mencionou uma viagem recente a Dubai, onde buscou discutir a venda do Banco Master ao grupo Fictor, envolvendo investidores dos Emirados Árabes. “Jamais imaginei passar por isso. Fiquei 12 dias na cadeia e agora estou em prisão domiciliar”, lamentou Vorcaro.
Além disso, em uma acareação com Paulo Henrique Bezerra, ex-presidente do BRB, Vorcaro destacou que o banco não pagou pela aquisição de uma carteira de créditos da empresa Tirreno, supostamente avaliada em R$ 6 bilhões. Quando questionado pela delegada sobre essa transação, ele esclareceu que o valor se encontrava apenas como um registro contábil e não houve efetivo desembolso de recursos da instituição. Após insistência, o banqueiro reafirmou que não houve pagamento real por parte do Banco Master.
Ao longo do depoimento, Vorcaro enfatizou que a crise de liquidez que afetou o banco se intensificou após a liquidação, que foi decretada no dia seguinte à sua prisão. O cenário gera preocupações sobre as implicações para investidores e a solidez do sistema financeiro, visto que o pagamento aos investidores do Banco Master pode se tornar o maior já registrado pelo FGC, totalizando R$ 41 bilhões, que devem ser distribuídos entre aqueles que tinham aplicações de até R$ 250 mil.

