Mudança de Terminologia na Segurança Pública
O governador do Ceará, Elmano de Freitas, do PT, recentemente divulgou um decreto que modifica a forma como as autoridades se referem a pessoas que morrem em operações policiais no estado. Segundo as novas diretrizes, os policiais, que eram identificados como “autores”, passarão a ser chamados de “interventores”, enquanto que as vítimas desses confrontos serão designadas como “opositores”. Essa redefinição provoca um debate intenso sobre a linguagem utilizada nas investigações relacionadas à segurança pública.
Em suas redes sociais, Elmano sustentou que a mudança busca assegurar uma diferenciação clara entre os papéis dos envolvidos. “Defendo sempre a lei, mas não aceito que os policiais, que arriscam suas vidas para proteger a população, sejam tratados da mesma forma que criminosos. Também não considero justo que bandidos sejam equiparados a vítimas em circunstâncias que evidenciam uma ação policial legítima no combate ao crime”, afirmou o governador.
Repercussão Política e Aproximação com Eleitores
Lideranças políticas no Ceará interpretam a alteração nas nomenclaturas como uma estratégia de Elmano para se aproximar de um eleitorado mais conservador, especialmente em um ano eleitoral. O petista já se prepara para enfrentar o ex-ministro Ciro Gomes, do PSDB, que possui o suporte de grupos opositores ao governo e de partidos de centro-direita. Essa disputa pode ser decisiva para a reeleição de Elmano, que visa consolidar uma base política sólida diante das novas nomenclaturas.
O Ceará, que ocupa a oitava posição em população entre os estados brasileiros e é o quarto em número de mortes violentas, enfrenta sérios desafios em relação à segurança pública. O estado está imerso em um conflito entre duas das maiores organizações criminosas do país, o Comando Vermelho, oriundo do Rio de Janeiro, e os Guardiões do Estado, que dominam a região. Nos últimos anos, o Comando Vermelho tem avançado em áreas sob controle dos Guardiões, levando a uma aliança entre a facção local e o Terceiro Comando Puro, outra organização criminosa do Rio de Janeiro.
Controvérsias e Reações à Alteração
A decisão do governador gerou uma onda de críticas. Mais de cem organizações da sociedade civil assinaram um manifesto repudiando a nova terminologia, denunciando-a como uma “grave afronta ao direito à vida, à presunção de inocência e ao devido processo legal”. O deputado estadual Renato Roseno, do PSOL, que preside o comitê de segurança da Assembleia Legislativa do Ceará, classificou o decreto como um “grave retrocesso” na política de segurança e se comprometeu a buscar mecanismos jurídicos para anular a medida.
Essa polêmica levanta questões cruciais sobre a forma como as autoridades lidam com a violência e a segurança pública no país. A mudança de nomenclaturas, embora aparentemente técnica, reflete uma postura que pode influenciar as investigações sobre a atuação policial e a percepção da sociedade sobre a violência urbana.
Enquanto o governador tenta estabelecer uma nova narrativa em tempos de campanha, a resposta da sociedade civil e a reação do Legislativo serão fundamentais para moldar o futuro das políticas de segurança no Ceará. É um momento delicado, no qual as palavras escolhidas podem ter um impacto profundo sobre a confiança pública nas instituições e nas forças de segurança.

