Despesas em Foco
Um levantamento do Justa, um centro de pesquisa, trouxe à tona a questão dos gastos dos estados brasileiros com o sistema de justiça. De acordo com o estudo, que analisou os orçamentos dos Tribunais de Justiça, Ministérios Públicos e Defensorias Públicas em 23 estados, mais de dois terços do total de R$ 93,2 bilhões foram destinados a folhas de pagamento. Essa análise, baseada nos dados mais recentes disponíveis, destaca um cenário preocupante para as finanças públicas, especialmente em um momento em que o STF, o Congresso e o governo se reúnem para discutir a proposta sobre os chamados ‘penduricalhos’.
Esses penduricalhos referem-se a verbas indenizatórias que, segundo o estudo, foram limitadas recentemente pelo STF, barrando membros do Judiciário e do Ministério Público de receber tais valores conforme algumas legislações estaduais. Além disso, o estudo revela que R$ 4,7 bilhões em créditos adicionais foram concedidos sem a devida aprovação legislativa, agravando ainda mais a situação dos supersalários no serviço público.
Aumento de Orçamentos
Entre 2023 e 2024, 11 estados experimentaram um crescimento orçamentário significativo nas instituições de justiça, superando o aumento de seus orçamentos gerais. Os estados que se destacaram nesse aspecto foram Acre, Bahia, Ceará, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia e São Paulo. Para Luciana Zaffalon, diretora-executiva do Justa, essa situação reflete um problema sistêmico, que não se limita a regiões específicas, mas é um fenômeno que permeia todo o país.
Em sua análise, Zaffalon apontou para a falta de transparência nos processos eleitorais das carreiras jurídicas, onde lideranças podem agir de forma a prometer benefícios em troca de apoio político, criando um ciclo vicioso que afeta as contas públicas. Ela ressaltou que tanto a legislação quanto a prática das instituições têm desrespeitado sistematicamente as normas constitucionais.
Estados em Destaque
Os dados apontam que Rondônia, Minas Gerais e Rio de Janeiro são os estados que mais investem proporcionalmente em suas instituições de justiça. Em Rondônia, o orçamento de R$ 14,5 bilhões para 2024 refletiu um crescimento de 13% em relação ao ano anterior. Desses, R$ 1,9 bilhão (cerca de 12,8%) foi destinado ao sistema de justiça, um aumento de 17% em relação a 2023. Essa cifra é superior ao total destinado a diversas áreas, como agricultura e cultura, que juntas receberam apenas R$ 1,1 bilhão.
Em Minas Gerais, o consumo das instituições de justiça alcançou R$ 12,3 bilhões, correspondendo a 11,5% do total do orçamento do estado. O Tribunal de Justiça de Minas Gerais, sozinha, consumiu R$ 8,6 bilhões, valor que supera o orçamento combinado de 12 áreas essenciais, como transporte e ciência e tecnologia.
No Rio de Janeiro, cerca de 11% do orçamento estadual foi alocado para as instituições de justiça. Contudo, neste estado, as disparidades são ainda mais evidentes, já que as despesas de áreas fundamentais, como saúde e educação, cresceram apenas 6%, enquanto os recursos destinados à justiça aumentaram impressionantes 17% no mesmo período.
Resposta dos Órgãos Públicos
Em resposta a esses dados, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro afirmou que os pagamentos das verbas em questão estão em conformidade com a legislação vigente, destacando que não há compensações não autorizadas. Já em São Paulo, onde o orçamento é o maior do país, os gastos com instituições de justiça chegaram a R$ 18,6 bilhões, com uma parte significativa destinada a créditos adicionais, enquanto outras áreas enfrentaram cortes drásticos.
Recentemente, o ministro do STF, Flávio Dino, anunciou a necessidade de uma revisão nacional sobre as verbas que ultrapassam o teto constitucional, estabelecido em R$ 46,3 mil, que é o limite para salários no Judiciário. Além disso, um acordo ficou definido entre o STF e líderes do Congresso para estabelecer regras que restrinjam esses pagamentos nos Três Poderes, evitando que os benefícios somados aos salários ultrapassem o teto constitucional.

