A Memória de Caio Fernando Abreu em Porto Alegre
Porto Alegre foi o cenário dos últimos dias de vida de Caio Fernando Abreu, onde passou cerca de um terço de seus 47 anos. O autor, falecido em 25 de fevereiro de 1996 devido à aids, é uma referência na literatura brasileira, tendo aproveitado a capital gaúcha como fonte de inspiração. Apesar de sua relevância, a maneira como a cidade trata sua memória é, no mínimo, tímida.
A obra de Caio é frequentemente abordada em saraus, mostras e peças teatrais, como “Caio do Céu”, “Um Passo Eu Caio” e “Caio em Construção”, além de ser objeto de estudos acadêmicos. Entretanto, sua presença nas instituições culturais locais é bastante limitada.
Existem algumas exceções dignas de nota, como a Casa de Cultura Mario Quintana, que abriga a Sala Caio Fernando Abreu, dedicada a palestras, cursos e rodas de conversa. Outro espaço relevante é o Delfos — Espaço de Documentação e Memória Cultural da PUCRS, que preserva um acervo significativo de documentos, incluindo manuscritos e recortes da imprensa relacionados ao escritor. Parte desse acervo está disponível online.
A irmã de Caio, Cláudia de Abreu Cabral, expressou sua insatisfação em relação à lembrança do autor na cidade: “A memória dele é pouco valorizada. Caio poderia ser mais reconhecido. Talvez utilizar a obra em eventos oficiais, ou homenageá-lo com o nome de algum espaço cultural”.
A Polêmica da Casa Demolida
Um ponto crítico na preservação da memória de Caio Fernando Abreu foi a demolição da casa onde ele residiu nos últimos anos. Localizada na Rua Oscar Bittencourt, número 12, no bairro Menino Deus, a propriedade foi vendida pela família do escritor em 2010 e teve sua licença de demolição aprovada pela prefeitura em abril de 2022. O ato consumou-se em julho daquele ano, gerando revolta entre os fãs, que deixaram flores e velas em homenagem ao autor.
A residência era uma espécie de personagem nas obras de Caio, e o movimento “Salve a Casa do Caio” tentava mobilizar esforços para transformá-la em um centro cultural ou para que fosse oficialmente tombada. Infelizmente, essas iniciativas não prosperaram.
Durante a demolição, a Secretaria Municipal de Cultura foi questionada sobre o não tombamento do imóvel e se limitou a dizer que “a casa não entrou no inventário do bairro Menino Deus”. Em nota, a Secretaria do Meio Ambiente e Urbanismo justificou que a licença foi concedida de acordo com as normas urbanísticas e ambientais, considerando tratar-se de uma propriedade particular.
Um Terreno Abandonado
Até o ano passado, o terreno pertencia à Incorporadora e Construtora Nazale, que planejava construir um condomínio no local, mas acabou vendendo a área. Atualmente, o espaço está tomado pela vegetação, sem qualquer sinal de obras. O portão da antiga casa, com seu estilo colonial espanhol, ainda permanece em pé, mas deteriorado.
A jornalista Paula Dip, amiga de Caio, comentou sobre a situação: “É um absurdo que Porto Alegre ignore a importância dele e da casa onde viveu. Mas, isso é o Brasil”. O ator e astrólogo Marcos Breda também lamentou a perda, sugerindo que o local poderia ter sido transformado em um centro cultural que homenageasse não só Caio, mas outros escritores que influenciaram sua obra.
Ressignificando a Memória de Caio
Uma proposta interessante surge do meio acadêmico: o tradutor Vinícius Fernandes, radicado no Rio de Janeiro, defendeu uma monografia na UFRGS, sugerindo uma caminhada por pontos que marcaram a história de Caio em Porto Alegre. O projeto, intitulado “Onde Andara Caio F.? — Itinerário Literário em Porto Alegre”, sugere um trajeto de cerca de 4 quilômetros, passando por 12 locais significativos.
O percurso incluiria o antigo Cine Baltimore, Bar Ocidente, a antiga casa de Luísa Felpuda, e outros pontos que representam a vida e a obra do autor. Vinícius lembrou de um evento similar, o “Caio Fernando Abreu Free Walking Tour” realizado em 2019, que, embora tenha sido uma homenagem, também serviu para aumentar a conscientização sobre a Aids no Estado.
Homenagens e eventos
Enquanto Porto Alegre ainda luta para reconhecer plenamente seu filho ilustre, a cidade de Santiago, onde Caio nasceu, demonstra um movimento oposto. Lá, ele é homenageado com um monumento na Rua dos Poetas, um auditório na Câmara de Vereadores e até uma escola técnica com seu nome. A Casa do Poeta Brasileiro em Santiago promove eventos para valorizar poetas e escritores.
A cidade de Porto Alegre, por sua vez, planeja algumas atividades para marcar os 30 anos da morte de Caio. A Biblioteca Pública Municipal Josué Guimarães abrirá uma exposição em homenagem ao autor, destacando 13 obras, enquanto o Instituto Estadual do Livro promoverá uma palestra e uma exposição sobre sua vida e legado.
Assim, embora a memória de Caio Fernando Abreu enfrente desafios em sua cidade natal, suas obras e seu impacto na literatura continuam a ressoar em diversas esferas, mantendo viva sua relevância e influência na cultura brasileira.

