Impactos do Acordo Mercosul-UE na Economia Brasileira
Após 25 anos de intensas negociações, o tratado econômico entre os países do Mercosul e a União Europeia (UE) foi formalmente assinado no último sábado, 17 de janeiro, em Assunção, Paraguai. Este acordo promete criar uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, o que pode resultar em mudanças significativas nos preços de produtos no Brasil e refletir de maneira abrangente na economia.
A cerimônia de assinatura contou com a presença de líderes importantes, como o presidente paraguaio Santiago Peña, o argentino Javier Milei e o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. Durante seu discurso, Peña destacou a importância do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a conclusão do acordo, afirmando que, sem ele, o tratado não teria sido possível. Apesar de sua ausência no evento, Lula tem se mostrado ativo nas negociações, tendo se encontrado com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, no dia anterior.
A União Europeia se comprometeu a eliminar tarifas para 92% das exportações do Mercosul, o que equivale a aproximadamente US$ 61 bilhões. Além disso, haverá acesso preferencial para 7,5% das exportações, representando cerca de US$ 4,7 bilhões, o que beneficia praticamente todas as exportações do Mercosul para a Europa. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) brasileiro comemorou a assinatura, enfatizando que ela representa um acesso preferencial à terceira maior economia do mundo, impactando mais de 450 milhões de consumidores.
Analistas apontam que, com a implementação do acordo, brasileiros poderão ver uma redução nos preços de produtos importados, incluindo vinhos, queijos e azeites. Além disso, há a expectativa de que marcas ainda não disponíveis no Brasil, como chocolates premium, possam entrar no mercado nacional. Outros itens, como veículos e insumos agrícolas, também poderão ter seus preços reduzidos, proporcionando um cenário mais favorável para o consumidor.
Os Desafios e Expectativas do Acordo Mercosul-UE
No entanto, a assinatura do acordo não é o passo final. Ele precisa passar pela ratificação nos parlamentos dos países envolvidos, um processo que pode enfrentar desafios e resistência política. Na Europa, a França e países como Polônia e Hungria têm expressado preocupações sobre a competição desleal que os produtos sul-americanos possam representar, gerando protestos entre agricultores. Na visão desses grupos, a abertura do mercado pode resultar na perda de renda para os produtores locais.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) do Brasil, por sua vez, vê no acordo uma oportunidade para fortalecer a indústria nacional e diversificar a pauta de exportações. Em nota, a CNI destacou que o tratado é um marco histórico que poderá aumentar o acesso brasileiro ao comércio global, passando de 8% para 36%. Além disso, o acordo é visto como uma chance de integrar o Brasil de maneira mais efetiva à economia mundial, especialmente em um cenário de crescente polarização entre potências como China e Estados Unidos.
O potencial do acordo também é reforçado por estudos que preveem um aumento do PIB brasileiro em 0,46% até 2040, com investimentos crescendo em 1,49%. O crescimento nas importações e exportações pode ser significativo, com as importações brasileiras podendo atingir US$ 12,8 bilhões em 2034, enquanto as exportações podem aumentar em US$ 11,6 bilhões no mesmo período.
Críticas e Expectativas Futuras
Entretanto, o acordo não é isento de críticas. Centrais sindicais e alguns setores da indústria expressam preocupações sobre a falta de atenção a direitos trabalhistas e sobre a possibilidade de uma desindustrialização do país. Quintino Severo, secretário adjunto de Relações Internacionais da CUT, destacou que o tratado não oferece mecanismos adequados para proteger os trabalhadores e poderá aumentar a dependência de produtos industrializados da Europa.
Mesmo assim, a assinatura do acordo é vista por muitos analistas como um passo importante em direção ao fortalecimento do multilateralismo e do livre comércio, especialmente em tempos de crescente tensões geopolíticas. De acordo com Nenad Dinic, do Equity Strategy Research, o acordo pode ajudar a mitigar a influência da China na América do Sul, promovendo um ambiente de trabalho mais colaborativo entre as nações. Assim, enquanto o Brasil se prepara para as mudanças que o acordo trará, a expectativa é de que ele promova um crescimento econômico sustentado, beneficiando tanto consumidores quanto produtores.

