Baixo desemprego, mas alto endividamento
O Brasil vive uma paradoxal realidade: enquanto o desemprego apresenta índices historicamente baixos, o endividamento das famílias atinge níveis alarmantes. Dados recentes do Banco Central indicam que, em média, as famílias brasileiras destinaram quase 50% de sua renda anual ao pagamento de dívidas, incluindo financiamentos, empréstimos pessoais e uso de cartões de crédito. Essa situação é a mais grave registrada durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se agrava em um cenário onde a inadimplência também cresceu, alcançando 6,9% em dezembro, um aumento de 1,7 ponto percentual em relação ao ano anterior.
Impacto dos juros altos
Os especialistas atribuem esse quadro preocupante ao alto nível da taxa de juros, que se encontra em 15% ao ano, o maior patamar desde julho de 2006. Segundo Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio, uma taxa de juros acima de 60% ao ano, como observado atualmente no crédito livre às famílias, pode produzir efeitos adversos no acesso a crédito e nas condições financeiras das famílias. Apesar do cenário macroeconômico mais favorável, o alto custo do crédito tem pressionado as finanças familiares.
Crescimento do crédito e suas consequências
Contudo, mesmo com as taxas elevadas, o crédito às famílias continua a crescer. Em dezembro, o saldo das operações livres para pessoas físicas somou R$ 2,5 trilhões, um aumento de 13,2% em relação ao ano anterior. O cartão de crédito, em particular, teve um crescimento expressivo, com as famílias devendo 17,1% a mais em 2025, em comparação ao ano anterior. Bentes alerta que essa expansão do crédito nem sempre reflete uma real melhoria nas condições financeiras, pois muitas vezes é utilizado para cobrir déficits orçamentários.
Testemunhos de quem recorre ao crédito
A realidade enfrentada por muitos brasileiros é retratada por Maria das Graças Barros, pensionista de 64 anos, que utiliza seu cartão de crédito para adquirir itens essenciais, como material escolar. “Às vezes, não temos dinheiro e temos que usar o cartão. Passei tudo no crédito e parcelado porque não dá para pagar tudo de uma vez”, relata. Outros, como a jovem vendedora Virgínia da Silva, de 22 anos, também dependem do cartão para gerenciar suas finanças, admitindo que em momentos de crise, muitas vezes precisam recorrer a empréstimos.
Os desafios do endividamento
Os dados da Tendências Consultoria revelam que o endividamento das famílias já chega a 54% da renda, superando os números oficializados pelo Banco Central. Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria, ressalta que o aumento das taxas de juros e a redução do prazo médio para pagamento explicam em parte essa situação crítica. Mesmo com o endividamento tendo caído no início do terceiro governo de Lula, a retomada do crescimento da dívida é uma preocupação constante, especialmente após a alta da taxa Selic iniciada em setembro de 2024.
O futuro do crédito
A possibilidade de reedição de programas como o “Desenrola” é vista como uma alternativa para amenizar os problemas relacionados ao endividamento familiar. Bentes acredita que a retomada desse tipo de iniciativa, que facilitou a renegociação de dívidas anteriormente, poderia ajudar a estabilizar as finanças das famílias, mesmo que não haja garantias de redução da inadimplência. Para o economista, a expectativa é que, com o início do ciclo de cortes da Selic previsto para março, a situação comece a melhorar a partir de setembro, levando a um aumento nas vendas do varejo, que atualmente enfrenta dificuldades para crescer.
Alessandra complementa que as novas opções de crédito, como o Crédito ao Trabalhador, que oferece juros mais baixos pelo desconto em folha, podem ajudar a aliviar as finanças das famílias. Além disso, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil pode contribuir para aumentar a renda disponível e reduzir a pressão sobre o endividamento e a inadimplência.

