Uma Homenagem Repleta de Emoção
Na noite do dia 31 de janeiro, o clube Manouche, localizado no Rio de Janeiro, foi palco de um espetáculo inesquecível. Cida Moreira abriu o show “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro” com uma interpretação poderosa de “Demais”, um samba-canção que simboliza o amor intenso e os excessos que marcaram a vida da artista homenageada, Angela Ro Ro. Em seguida, Cida apresentou “Devoção”, uma joia do álbum “Só nos resta viver” (1980). “Sempre é hora de brotar canções / Confessar paixões exiladas…”, interpretou Cida, capturando a essência da obra de Ro Ro enquanto o público se entregava à magia da noite.
O show teve tanta adesão que novas sessões foram agendadas para os dias 1º, 11 e 12 de fevereiro, antes da estreia em São Paulo, programada para 4 de fevereiro na Casa de Francisca. Cida e Angela, amigas desde 1978, sempre compartilharam palcos e experiências, e a presença de Angela, que partiu em setembro de 2025, fez da performance de Cida um tributo ainda mais profundo.
A Performática Interpretação de Cida
Dotada de uma voz operística e uma trajetória que a posicionou no cerne da Vanguarda Paulista dos anos 1980, Cida Moreira apresentou uma evolução clara em sua atuação. O contraste entre a gravação de “Gota de sangue” (1979) e sua interpretação atual demonstrou o crescimento artístico da cantora. Ontem, no Manouche, ela não apenas cantou as canções de Angela Ro Ro, mas as revitalizou com uma nova profundidade que emocionou a plateia.
Durante o show, Cida expressou sua conexão com as letras de Ro Ro, e em algumas canções, como “Karma secular” (1986), ela explorou um lado mais pessoal e íntimo. Em cada interpretação, a artista trouxe um toque único, seja pela inflexão de voz ou pela cadência do piano, como demonstrado em “Balada da arrasada” (1979), que ganhou uma nova vida quase tangente a um tango.
Momentos de Tensão e Superação
Embora a estreia tenha começado com nervosismo, a artista rapidamente se adaptou ao clima do show. Um incidente com uma espectadora na primeira fila que havia causado problemas em apresentações anteriores quase ofuscou a performance. No entanto, após um breve desabafo diante do público, Cida conseguiu restabelecer a harmonia e seguir em frente.
Após a tensão inicial, ela até revisitou a canção “Tola foi você” (1979), decidida a concretizar a performance com todo seu talento. Mesmo as músicas menos conhecidas foram bem recebidas, e a interpretação de “A mim e a mais ninguém” (1979) foi um verdadeiro espetáculo à parte, ilustrando a força da amizade e a beleza das composições de Ro Ro.
Uma Conexão Poesia e Música
Cida Moreira sempre teve uma paixão ardente pelas letras de Angela Ro Ro, e isso ficou evidente na escolha das músicas e na forma como as apresentou. A artista intercalou poesias com trechos de canções como “Solitários interplanetários” (1985) e “Sistema” (1983), criando um ambiente de reflexão e emoção.
O encerramento do show, com o famoso “Summertime” (1935), trouxe à tona a maestria vocal de Cida, que, com sua voz amadurecida, fez uma homenagem à sua amiga, enfatizando a conexão entre as duas cantoras.
Assim, Cida Moreira não apenas celebrava Angela Ro Ro, mas também reafirmava seu lugar como uma das grandes intérpretes da música brasileira, mostrando que a arte pode ser uma forma poderosa de manter viva a memória de grandes poetas e loucos que não abrem concessão.

