Os Desafios da Diplomacia Brasileira em 2025
O g1 teve a oportunidade de entrevistar o embaixador Maurício Lyrio, que atua como negociador do Brasil nos eventos do Brics e na COP30. Atualmente, ele é o secretário de Clima e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, além de ter ocupado posições importantes, como a de secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros, participando também das negociações do Mercosul.
No contexto do Mercosul, o Brasil teve um papel de destaque ao presidir o bloco durante o segundo semestre de 2025, com a expectativa de passar a presidência ao Paraguai no dia 20 de dezembro. Contudo, a assinatura do esperado acordo com a União Europeia foi adiada para 2026, e o Paraguai assumirá a liderança nas próximas negociações.
Afinal, apesar da assinatura já ter sido acordada pelos países membros, a conclusão final das tratativas ficou para mais adiante. Essa negociação foi finalizada em dezembro de 2024, durante uma importante reunião em Montevidéu, que contou com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Apesar das dificuldades que a União Europeia enfrenta para chegar a um consenso, Lyrio ressalta que o Mercosul continua a ter uma agenda externa vibrante, tendo já firmado mais de dez acordos comerciais ao longo de sua história. Na atual gestão de Lula, o bloco conseguiu fechar um acordo com Singapura e finalizou as negociações com a União Europeia, após uma década sem novos tratados.
O embaixador enfatiza a importância desse acordo, que vai além do aspecto comercial, possuindo um caráter político significativo em um cenário de crescente protecionismo. Quando duas regiões se unem em favor da integração e da convergência, isso representa uma mensagem poderosa para o mundo, afirma Lyrio.
Os Desafios Internos do Mercosul
De acordo com o diplomata, o maior desafio que o Mercosul enfrenta atualmente não está fora do bloco, mas sim internamente: a necessidade de um maior alinhamento entre os países-membros. Lyrio observa que ações unilaterais por parte de potências globais têm um impacto desigual sobre os países do Mercosul, exacerbando a pressão para que cada um busque negociações individuais, especialmente com os Estados Unidos. Além disso, as diferenças ideológicas entre os governos da região também complicam essa dinâmica.
Mesmo diante dessas dificuldades, o Brasil tem conseguido manter canais abertos com líderes de diversas tendências políticas. Para Lyrio, a ampliação de acordos externos também fortalece o bloco internamente, criando compromissos comuns entre os países. “A negociação coletiva gera obrigações que, por sua vez, fortalecem o Mercosul do ponto de vista interno”, destaca.
Expectativas para a COP30
O Brasil continua à frente da presidência da COP30 até a próxima conferência, que ocorrerá no final de 2026. A edição de 2025, realizada em Belém, atraiu a participação de mais de 42 mil pessoas de 195 países. No entanto, a COP30 encerrou-se sem um acordo sobre combustíveis fósseis, mesmo com previsões científicas indicando um aquecimento global superior a 1,5°C.
Embora cientistas e ambientalistas tenham expressado frustração com os resultados, Lyrio se mostra otimista, destacando que, diante do atual cenário geopolítico, houve avanços notáveis. “No início do ano, havia dúvidas sobre a sobrevivência do regime climático, mas não só sobreviveu, como também conseguiu gerar novas obrigações”, afirma.
O Papel do Brasil nos Brics
Durante a presidência brasileira no Brics, em um contexto de crescente tensão geopolítica, Lyrio ressalta que o Brasil se empenhou em fortalecer a cooperação nas áreas de desenvolvimento social e econômico. Um dos resultados mais emblemáticos foi a criação de uma parceria voltada para a erradicação de doenças sociais, que afetam de maneira significativa os países em desenvolvimento, colocando a saúde como um foco central na agenda do grupo.
“Os laboratórios do Brasil, da Índia, da China, da Rússia e da África do Sul são robustos. Precisamos unir forças para enfrentar doenças que não são priorizadas na medicina global”, destaca Lyrio.
A agenda climática também teve destaque, com o Brasil empenhando-se em estabelecer uma posição comum do Brics em relação às mudanças climáticas, o que facilitou as negociações da COP30. O embaixador afirma que os países do grupo se mostraram aliados cruciais nas fases mais decisivas da conferência.
Outro avanço significativo foi a elaboração da primeira posição unificada do Brics sobre inteligência artificial, discutindo tanto os potenciais benefícios da tecnologia quanto os riscos associados, especialmente em relação ao emprego e à desigualdade. “Conseguimos estabelecer um consenso sobre a necessidade de uma governança global da inteligência artificial”, conclui.
O Brasil em 2026: Perspectivas Futuras
Ao refletir sobre a imagem do Brasil no cenário internacional, Lyrio afirma que o país recuperou sua liderança na promoção de soluções coletivas frente a desafios globais. Os temas centrais da política externa, como combate à fome, questões climáticas e defesa do comércio internacional, devem continuar a ser prioritários em 2026. O embaixador destaca que essa abordagem focada no desenvolvimento social, na redução das desigualdades e no acesso a financiamento para países em desenvolvimento permanecerá como prioridade da atuação internacional brasileira, especialmente enquanto o Brasil mantiver a presidência da COP30.

