A Cultura Brasileira e Seu Potencial Global
O Brasil se destaca como uma potência cultural não apenas em discurso, mas em fatos concretos. Nossa música ressoa através das décadas, influenciando tendências e artistas ao redor do mundo. O setor audiovisual, por sua vez, conquista espaço em festivais internacionais e plataformas de streaming, enquanto a moda, a literatura e os jogos eletrônicos ganham cada vez mais prestígio. Além disso, o consumo cultural nas favelas tem atraído olhares globais. Contudo, um fator permanece em evidência: a falta de uma estratégia definida.
Enquanto nações como a Coreia do Sul e o Japão transformaram sua cultura em um projeto nacional, por meio de planejamento e investimentos contínuos, o Brasil ainda parece tratar sua criatividade como um fenômeno espontâneo, quase acidental. A maneira como exportamos nossa cultura se assemelha mais à sorte do que ao resultado de uma política pública bem estruturada.
O Potencial Econômico da Indústria Criativa
Dados recentes demonstram o tamanho do potencial do setor criativo brasileiro, que contribuiu com 3,59% do PIB em 2023, movimentando cerca de R$ 393 bilhões e gerando mais de 1,2 milhão de empregos. Esse crescimento foi quase o dobro da média nacional. Apesar desse expressivo desempenho, a cultura ainda é vista como um gasto simbólico, ao invés de um investimento estratégico.
Um dos principais obstáculos enfrentados é a estrutura do setor, marcada pela concentração e descoordenação. A economia criativa no Brasil é excessivamente dependente do eixo Rio-São Paulo, enquanto talentos oriundos de favelas, periferias e outros locais são frequentemente subfinanciados. A falta de alinhamento entre governo, agências públicas, setor privado e criadores é evidente, uma vez que cada parte opera isoladamente. Isso ocorre em um cenário onde plataformas estrangeiras dominam a distribuição, os dados e a monetização do conteúdo brasileiro.
Desafios e Oportunidades na Cultura Brasileira
O Brasil gera uma quantidade significativa de cultura, mas o controle sobre ela é limitado. Nossa produção cultural circula globalmente sob normas que não estabelecemos, revelando a ausência de soberania cultural e digital. É fundamental entender que o soft power é também uma questão de infraestrutura econômica.
Ainda assim, é válido ressaltar que novas iniciativas vêm surgindo e trazendo esperanças. A criação da “Rouanet das favelas” representa uma mudança importante ao reconhecer territórios populares como centros legítimos de produção cultural e econômica, quebrando uma lógica histórica de concentração de recursos. Estudo indica que para cada real investido em cultura através da Lei Rouanet, são gerados R$ 7,59 em impactos econômicos e sociais.
Além disso, a participação de empreendedores da Expo Favela no Web Summit, em Lisboa, organizada pela ApexBrasil, ilustra como cultura, inovação e negócios podem caminhar juntos dentro de uma estratégia internacional mais robusta.
Transformando Iniciativas em Políticas de Estado
Essas experiências demonstram que o verdadeiro desafio não é mais provar que a criatividade brasileira existe ou que ela gera valor. O grande desafio é converter boas iniciativas em políticas duradouras, que possuam continuidade estratégica, alcance nacional e uma visão de longo prazo. Trata-se de uma política de Estado, e não de uma ação pontual.
O caminho para essa transformação é bastante claro. Necessitamos de uma marca unificada para promoção internacional, de uma estratégia agressiva para exportação cultural, ampliação da atuação da Ancine além do audiovisual tradicional e investimentos consistentes em formação técnica, distribuição própria, além de dublagem e legendagem de qualidade.
Os investimentos necessários não são exorbitantes. Algo em torno de R$ 3,5 bilhões ao longo de cinco anos seria suficiente para realizar essa transição. Um valor modesto considerando o retorno potencial em termos de exportações, geração de empregos e aumento da influência global.
Portanto, a questão não é se o Brasil pode se consolidar como uma potência cultural global, pois já o é. A pergunta que deve ser feita é: por que continuamos a tratar essa riqueza cultural como um detalhe, quando deveria ser um verdadeiro projeto de nação?

