Um Ícone da Cultura Carioca
Nesta terça-feira, 25 de outubro, o Rio de Janeiro se despediu de Nelson Rodrigues Filho, conhecido como Nelsinho. Com 80 anos de vida, ele deixou um legado significativo como dramaturgo, produtor cultural e militante político, especialmente no contexto do Carnaval de rua carioca. Sua morte gerou uma onda de luto e homenagens entre artistas, políticos, torcedores do Fluminense — time que apoiou fervorosamente — e integrantes dos blocos de carnaval, refletindo a profundidade de sua contribuição à cultura da cidade.
Nelsinho foi o criador do Bar do Barbas e do bloco homônimo, estabelecidos em 1981 e 1985, respectivamente. Ele também desempenhou um papel crucial como um dos fundadores da Sebastiana – Associação de Blocos de Rua do Rio, lutando incansavelmente pela valorização do carnaval de rua carioca.
Trajetória Marcada pela Arte e Ativismo
Desde a adolescência, Nelsinho dedicou-se às artes cênicas. Filho do célebre dramaturgo Nelson Rodrigues, ele pavimentou sua própria trajetória, marcada pela interseção de arte, crítica social e ativismo político. Atuou como diretor teatral, roteirista e produtor cultural, sempre em busca de abordar questões sociais e seus reflexos na sociedade brasileira.
Durante a sombría época da ditadura militar, Nelsinho se uniu ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), um grupo de resistência ao regime militar, e pagou um preço alto por suas convicções, passando mais de oito anos encarcerado. Essa experiência moldou sua visão de mundo e solidificou seu compromisso com a democracia e as liberdades civis.
A Recusa de Privilégios e a Luta pela Liberdade
Libertado em 1979, em meio à mobilização pela anistia e à promulgação da Lei da Anistia, Nelsinho, embora tenha recebido apoio de seu pai para a soltura, rejeitou qualquer tratamento privilegiado. Para ele, a liberdade deveria ser resultado da luta coletiva e da reparação das injustiças sofridas por todos os prisioneiros políticos.
Essa postura reafirmou sua integridade ética e seu profundo entendimento sobre a importância de não aceitar privilégios pessoais em detrimento do bem comum. Sua volta à vida cultural foi marcada por um renovado vigor, transformando sua vivência política em uma busca pelo fortalecimento da arte e da comunidade.
O Bar do Barbas e a Reinvindicação do Carnaval de Rua
Em 1981, Nelsinho, junto de amigos, fundou o Bar do Barbas, um espaço que se tornaria um símbolo de resistência cultural em um momento em que as liberdades de expressão eram escassas. Artistas renomados como Mauro Duarte e Beth Carvalho frequentemente visitavam o bar, criando um ambiente fértil para a música e a crítica social.
O Bloco do Barbas foi criado em 1985, consolidando-se como uma das principais referências na revitalização do carnaval carioca. Com um espírito de irreverência e crítica política, o bloco continua a desfilar pelas ruas de Botafogo, mantendo viva a tradição e a liberdade de expressão.
Um Liderança no Movimento Cultural
Nelsinho foi fundamental na fundação da Sebastiana em 2000, contribuindo significativamente para a articulação de demandas dos blocos e a defesa das políticas culturais relacionadas ao carnaval de rua. Ele atuou como um mediador respeitado nas discussões sobre ocupação urbana, segurança e preservação da autonomia dos blocos, sempre buscando um espaço para a diversidade cultural.
O Legado de Nelsinho
Após sofrer um AVC em 2015, sua saúde se deteriorou, culminando em sua internação no Hospital da Unimed em fevereiro deste ano. Nelsinho faleceu após complicações de saúde, deixando um vazio imenso na cultura carioca.
O Fluminense Football Club, time que sempre apoiou, bem como diversas instituições culturais, expressaram suas condolências e homenagens. O velório de Nelsinho acontecerá no Salão Nobre do clube, reunindo representantes das artes, da política e do carnaval, reafirmando a importância de seu legado.
A partida de Nelsinho Rodrigues simboliza não apenas a perda de uma figura proeminente da cultura carioca, mas também o fechamento de um capítulo de militância e criatividade intensa. Seu legado permanece vivo nos desfiles do Bloco do Barbas e na história da Sebastiana, ecoando entre todos aqueles que veem o carnaval como uma forma de resistência e expressão cultural.

