Políticas de Cuidado e Protagonismo Comunitário
No Museu de Favela (MUF), em Ipanema, aconteceu nesta terça-feira (10/2) um importante evento que reafirmou a necessidade de abordar a saúde de forma integrada nos territórios. Com o tema “Políticas de cuidado nas favelas produzem saúde para todas as pessoas”, a celebração do Dia Estadual de Saúde nas Favelas reuniu lideranças, organizações sociais, pesquisadores e representantes de instituições. O objetivo foi fortalecer as ações do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, uma iniciativa da Fiocruz que conecta universidades, coletivos comunitários e organizações sociais.
Na abertura do evento, Valcler Rangel, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, destacou a importância da experiência acumulada no estado. “Hoje, existem diversas iniciativas pelo Brasil voltadas para a população das favelas e periferias, que se inspiraram no Plano Integrado de Saúde nas Favelas e na rede 146x Favela. É uma responsabilidade servir de referência para outras localidades, como Amazonas, Pará, Ceará, Pernambuco, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Brasília”, afirmou Rangel. Também mencionou que muitos projetos em andamento são liderados por mulheres e jovens, evidenciando a inclusão na discussão de políticas públicas.
O Tempo de Cuidado e a Realidade Feminina
Gisele Castro, coordenadora do Instituto Golfinhos da Baixada, trouxe à tona a experiência das mulheres nas favelas, enfatizando a invisibilidade do tempo dedicado ao cuidado. “O tempo que uma mãe dedica a cuidar dos filhos e da família pode chegar a 15 horas por dia, começando às 7h e terminando às 22h. Muitas dessas mulheres negras não têm escolha se vão cuidar ou não. A Política Nacional de Cuidado precisa considerar a questão de gênero e buscar equiparações nesse aspecto”, defendeu.
A relevância dessa discussão foi corroborada por dados apresentados na Avaliação Diagnóstica Externa, conduzida pela PUC-Rio e UFRJ. O estudo analisou 46 projetos apoiados pelo primeiro edital do Plano e revelou que a presença feminina é fundamental, tanto como público majoritário quanto como lideranças das iniciativas. Mariana Camasmie, cientista social e pesquisadora da PUC-Rio, destacou esses dados: “Observamos uma forte presença feminina em várias frentes, com mulheres não apenas como participantes, mas também como líderes comunitárias, evidenciado nos relatórios sobre articulação entre organizações e lideranças locais.”
Transformando a Saúde nas Comunidades
Os projetos não só aumentaram a percepção comunitária sobre saúde integral, mas também fomentaram o fortalecimento de novas lideranças e a ampliação do entendimento sobre saúde, que agora inclui alimentação saudável, saúde mental, autocuidado, renda e participação social.
Após a abertura, os participantes se dividiram entre uma visita guiada às exposições do MUF e a oficina “Cuidado como Prática Coletiva nos Territórios”, realizada pela Casa Fluminense e pelo Espaço Gaia. Essa oficina visou mapear práticas de cuidado já existentes nas comunidades, que muitas vezes não são reconhecidas como políticas de saúde. Lívia Santos, vice-diretora do Espaço Gaia, ressaltou a importância de incluir a perspectiva de gênero nas discussões: “Temos uma grande oportunidade de inserir o tema dos territórios na Secretaria Nacional de Cuidados. É fundamental incluir gênero na política nacional de cuidados, considerando que cerca de 80% dos projetos sociais são liderados por mulheres. Isso já reflete como o cuidado é praticado nas comunidades”.
Avanços e Desafios na Sustentabilidade das Ações
Os dados da avaliação reforçam a percepção de que as organizações avaliam positivamente a atuação em rede, valorizando a cooperação, a corresponsabilidade e o fortalecimento institucional. No entanto, também apontaram desafios relacionados à captação de recursos e à sobrecarga das lideranças, fatores que impactam diretamente a sustentabilidade das ações. Apesar disso, o estudo concluiu que a chamada pública teve um papel crucial no fortalecimento das redes territoriais, ampliando a participação social e solidificando a visão de saúde como um direito coletivo.
Reconhecimento e Impacto nas Políticas Públicas
Durante a apresentação do diagnóstico, Richarlls Martins, coordenador executivo do Plano, enfatizou que o debate sobre políticas de cuidado nas favelas representa uma importante inflexão na agenda pública. “Quando falamos de políticas de cuidado nas favelas, estamos afirmando que esses territórios são capazes de gerar soluções concretas para os desafios da saúde pública. O cuidado nas favelas é coletivo, solidário e político, enfrentando desigualdades históricas de raça, gênero e renda. Reconhecer esse aspecto é essencial para que as políticas públicas deixem de ver as favelas apenas como espaços de vulnerabilidade e passem a reconhecê-las como locais de produção de conhecimento, inovação e direito à saúde”, ressaltou Martins.
Ao final do evento, as interações e trocas de experiências mostraram que o Dia Estadual de Saúde nas Favelas vai além de um simples marco. “É um ponto-chave na construção política, onde cuidado, território e participação social estão interligados, e a saúde se estabelece como um direito produzido coletivamente”, concluiu Martins.

