Contexto Econômico do Protecionismo
Um ano após a implementação das barreiras comerciais por Donald Trump, as expectativas de um choque inflacionário nos Estados Unidos inicialmente levantadas seguem em análise. O protecionismo adotado pelo ex-presidente se sobrepôs a paradigmas econômicos, prometendo mudanças que, até aqui, não se concretizaram da forma como muitos previam. Carne bovina, veículos e produtos agrícolas estão entre os itens afetados por tarifas e acordos que visam alterar a dinâmica do comércio internacional, como o recente acordo com a Argentina. Contudo, os efeitos dessa política em um cenário global de inflação permanecem ambíguos.
No último artigo publicado no Wall Street Journal, Trump defendeu que suas tarifas reverteram a queda econômica e contribuíram para a redução da inflação, que, segundo ele, caiu de forma ‘dramática’. Apesar da retórica otimista, economistas têm uma visão mais crítica. Eles destacam que, embora a inflação não tenha disparado como se esperava, continua acima da meta, resultado, em parte, das tarifas que atrasam cortes de juros por parte do Federal Reserve.
Desempenho Econômico e Setores Impactados
Os dados revelam que a economia americana cresceu de forma desigual, com Wall Street sendo impulsionada pelo setor de tecnologia, que se beneficia significativamente de investimentos em inteligência artificial. Entretanto, a incerteza permeia o mercado, contribuindo para a desvalorização do dólar. A reorientação de empresas, bem como a resposta de Trump a diversas pressões, delinearam um panorama econômico diferente do esperado, conforme apontam analistas.
De acordo com Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, o protecionismo de Trump desafia a narrativa de que economias abertas tendem a apresentar inflação controlada. ‘O que se observa é que o fechamento da economia dificulta a redução da inflação, consome renda e freia o crescimento’, destaca. Mesmo que as tarifas não tenham ocasionado um aumento inflacionário significativo, elas também não contribuíram para que a inflação convergisse para a meta estabelecida de 2%. Desde 2024, essa meta não é alcançada.
A Polêmica das Tarifas e Exceções
O impacto das tarifas é complexo. Parte da explicação para a contenção dos efeitos inflacionários está na diluição dos impactos, uma vez que Trump recuou em várias medidas e negociou exceções específicas por produto ou país. Essa estratégia resultou na expressão TACO, que critica a tendência de Trump em ceder. Empresas que anteciparam importações para se proteger de tarifas muitas vezes absorveram os custos elevados, reduzindo suas margens ao invés de repassar os aumentos aos consumidores.
Além disso, uma parte significativa do consumo americano é menos afetada por bens industriais e agrícolas, os principais focos das tarifas, o que atenuou o impacto inflacionário. Contudo, aumentos em produtos como carne e café geraram descontentamento, levando o governo a introduzir novas exceções que beneficiaram, por exemplo, exportadores brasileiros.
Expectativas para o Futuro da Economia Americana
Ainda que os choques esperados não tenham se concretizado, o impacto das políticas de Trump na reindustrialização dos EUA permanece em questão. Não se observou uma recuperação robusta nas indústrias locais, enquanto a troca de fornecedores, especialmente da China, sugere uma reorganização dos fluxos comerciais.
O crescimento econômico previsto para 2025, de acordo com o FMI, é de 1,8%, mas análises recentes indicam que pode superar os 2%. Até o terceiro trimestre do último ano, o PIB americano cresceu a uma taxa anualizada de 4,4%, a mais alta em dois anos. Apesar de não ser um crescimento uniforme, a concentração de investimentos em setores como a inteligência artificial tem puxado a média do PIB.
Impactos Sociais e Mercado de Trabalho
Entretanto, a expansão não tem sido acompanhada de um aumento significativo de empregos. Em janeiro, os Estados Unidos registraram o maior número de demissões em janeiro desde 2009, totalizando 108.435 cortes. Para Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV/Ibre, isso indica que, apesar do crescimento, a criação de vagas não é suficiente, levando a uma situação de relativo equilíbrio no mercado de trabalho, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos.
Pessôa acredita que a economia americana poderá crescer cerca de 2,4% neste ano, impulsionada por gastos em inteligência artificial e por uma lei orçamentária que reduziu impostos. Contudo, a pressão inflacionária ainda pode impactar negativamente os mais vulneráveis da sociedade. O Fed, sob pressão de Trump, interrompeu cortes de juros, optando por uma abordagem mais cautelosa diante da inflação persistente.
Conclusões e Desafios Futuros
Enquanto os efeitos do protecionismo se desdobram e a desvalorização do dólar continua a ser um fator de incerteza, o governo americano enfrenta um cenário desafiador. A deterioração das instituições e a política econômica de Trump levantam dúvidas sobre a eficácia das tarifas e seu impacto sobre a economia no longo prazo. Observa-se, portanto, que o caminho à frente é incerto e dependerá de como os eleitores americanos interpretarão as repercussões dessas políticas nas próximas eleições.

