Impacto dos SUVs e Picapes em Acidentes de Trânsito
Um recente estudo da Abramet (Associação Brasileira de Medicina de Tráfego) revela que veículos maiores, como SUVs e picapes, provocam lesões mais severas em pedestres durante atropelamentos. Com a publicação marcada para esta segunda-feira (9), o documento, intitulado “Tolerância Humana a Impactos: Implicações para a Segurança Viária”, destaca também o crescimento das modalidades de transporte que convivem atualmente no trânsito, como patinetes elétricas.
Flávio Adura, médico e diretor científico da Abramet, explica que a diferença nas lesões provocadas por carros de diferentes tamanhos é principalmente biomecânica. Ele esclarece que, em veículos mais baixos, o impacto inicial normalmente atinge as pernas do pedestre, o que pode reduzir a gravidade das lesões por conta do arrasto sobre o capô. “Nos SUVs, o primeiro impacto geralmente afeta áreas vitais como tórax, abdômen ou cabeça, aumentando significativamente a gravidade das lesões”, ressalta Adura.
Além disso, SUVs e picapes possuem maior massa e rigidez estrutural, o que resulta em uma transferência de energia mais intensa no momento do impacto, conforme aponta o estudo. Com o aumento da presença desses veículos nas ruas, pedestres e ciclistas estão expondo-se a um risco maior, mesmo diante dos avanços na segurança para os ocupantes desses automóveis.
As diretrizes da Abramet afirmam que, a partir de velocidades acima de 30 km/h, os SUVs apresentam um risco consideravelmente maior de causar lesões graves em pedestres devido ao seu design elevado. Os dados foram obtidos por meio de diversas pesquisas epidemiológicas e biomecânicas realizadas em países, como os EUA e na Europa, que analisaram dados de atropelamentos.
Essas pesquisas avaliaram acidentes reais, simulações biomecânicas e testes realizados com manequins instrumentados, permitindo uma melhor compreensão do impacto da altura do capô e do design frontal dos veículos nas lesões ocorridas. A Abramet destaca que a cada 10 cm a mais na altura da frente do veículo, o risco de morte de um pedestre pode aumentar em até 22%. Em colisões reais, 30% dos pedestres atingidos por SUVs faleceram em impactos entre 32 km/h e 64 km/h, enquanto essa taxa era de cerca de 23% com carros comuns.
Visibilidade e Riscos em Veículos Maiores
Um estudo recente realizado pelo IIHS (Insurance Institute for Highway Safety) dos EUA identificou que a visibilidade reduzida em veículos maiores aumenta o risco de atropelamentos. A pesquisa analisou como as estruturas dos automóveis influenciam a capacidade dos motoristas de enxergar pedestres ao redor de seus veículos. Quando comparados a carros menores, a probabilidade de colisão foi 69,7% maior em veículos com áreas cegas grandes e 59% maior em veículos com áreas cegas médias.
“Veículos mais altos e volumosos apresentam pontos cegos maiores ao redor da carroceria, especialmente na parte frontal e nas laterais. Pesquisas indicam que SUVs e picapes são entre 23% e 42% mais propensos a atropelar pedestres durante manobras de conversão”, afirma Adura.
Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, observa que os estudos sobre SUVs no Brasil são escassos. Recentemente, as atualizações nos modelos de veículos aumentaram a área de pontos cegos em até 60%, segundo o IIHS, o que pode resultar em um maior número de atropelamentos, especialmente envolvendo crianças e pessoas de baixa estatura.
Consequências da Velocidade e Recomendações de Segurança
As novas diretrizes enfatizam que aumentar em 5% a velocidade permitida nas vias pode elevar em até 20% o número de fatalidades. Este alerta surge em um contexto em que uma medida provisória recente permite a renovação automática da CNH (Carteira Nacional de Habilitação) sem a exigência de exames de aptidão física e mental.
Antonio Meira Júnior, presidente da Abramet, destaca que o documento representa um marco importante ao vincular a segurança viária ao campo da saúde pública, enfatizando que a abordagem deve ir além de questões de comportamento e engenharia, mas também considerar os limites biológicos dos seres humanos. O gerenciamento da velocidade, segundo a diretriz, deve ser um princípio fundamental em qualquer estratégia para reduzir mortes e lesões no trânsito.
A diretriz também aborda veículos autopropelidos, mencionando que o risco de acidentes envolvendo patinetes elétricas é 3,8 vezes maior em comparação com bicicletas. As hospitalizações decorrentes de sinistros com patinetes muitas vezes resultam em traumatismos cranianos, frequentemente agravam-se pela falta de capacete.
Com o intuito de aumentar a segurança, algumas recomendações incluem a melhoria do design dos veículos, promovendo frentes mais absorventes de energia e a adoção de tecnologias de segurança, como sistemas automáticos de frenagem com detecção de pedestres. Além disso, gestores de trânsito são aconselhados a reduzir velocidades em áreas urbanas, o que é considerado o principal fator que influencia a gravidade dos atropelamentos.

