Redescobrindo a Língua Brasileira
Antes do lançamento do seu novo álbum, “Brasiliano”, agendado para o próximo dia 6 de março, Lucas Santtana continua a presentear seus fãs com singles. O mais recente, “Que seja um reggae”, lançado em 8 de janeiro, conta com uma participação especial d’Os Paralamas do Sucesso. Essa colaboração remete a um momento especial na carreira do cantor, já que em 2000 ele reinterpretou a famosa “Mensagem de amor” apenas com voz e violão, transformando-a em um de seus maiores sucessos.
— Em 1998, durante um dos meus primeiros shows solo, tive a oportunidade de tocar ao lado deles, através do produtor Chico Neves — relembra Lucas. A admiração pelos Paralamas é profunda: — Nos anos 80, essa banda moldou minha compreensão sobre o rock. Até aquele momento, o gênero era dominado por influências anglo-saxãs. Porém, com o lançamento de “Selvagem?” em 1986, eles trouxeram uma nova sonoridade, misturando rock com ritmos brasileiros, algo que ressoou fortemente na minha formação musical.
Filho do renomado produtor Roberto Sant’Ana, que transitou entre o Tropicalismo e a axé music, Lucas iniciou sua trajetória musical ao lado de Gilberto Gil, tocando flauta transversa em álbuns como “Tropicália 2” (1993) e “Unplugged MTV” (1994). Agora, três décadas depois, ele se reuniu novamente a Gil na música “História da nossa língua”, lançada como o primeiro single de seu novo projeto. Essa faixa representa uma viagem pelas raízes da língua portuguesa, desde o latim vulgar até as influências do tupi-guarani e das línguas africanas, simbolizando um fechamento de ciclo na carreira de Lucas.
— É surreal pensar que o cara que foi meu ícone na adolescência, que moldou uma base cultural em mim, está agora colaborando em uma música que eu compus. E que trata da nossa língua… é o cara da Academia Brasileira de Letras! — reflete Lucas, admirado. — Quando ele aceitou participar, não acreditei. Ele tem 83 anos e uma agenda cheia, foi como um espetáculo de fogos de artifício.
25 Anos de Carreira e uma Nova Trajetória
O anúncio do álbum “Brasiliano” coincide com a comemoração dos 25 anos de seu álbum de estreia, “Eletro Ben Dodô” (2000). Lucas revisitou este trabalho cinco anos atrás, em parceria com seu produtor original, Chico Neves, ajustando algumas letras que lhe pareciam desatualizadas, mas mantendo a essência sonora que encontrou desde o início.
— A ideia por trás de “Brasiliano” era criar um disco repleto de colaborações com músicos que marcaram minha carreira. No entanto, não imaginava o quanto isso exigiria — admite o cantor, que acabou reunindo 11 faixas e mais de 12 participações, incluindo nomes como Gil, Paralamas, Chico César e a guineense Karyna Gomes. O processo para gravar o disco se estendeu por meses, um verdadeiro desafio, mas com recompensas que valem a pena.
Após quase quatro anos residindo na cidade de Montpellier, Lucas começou a lançar seus álbuns por uma gravadora francesa desde 2014. A decisão de se mudar foi influenciada pela pandemia e pelas dificuldades enfrentadas no Brasil, além da oportunidade de dar aos filhos uma experiência multicultural.
Reflexões sobre a Língua e a Cultura
Enquanto passeava no parque com seu filho Dom, surgiu a ideia de criar um disco que celebrasse a língua portuguesa, uma das formas mais potentes de expressão cultural. Lucas comenta como a língua pode ser um reflexo da identidade e da política.
— Os franceses têm um amor genuíno pelo Brasil e pela nossa língua, muito por conta da música popular. Durante os passeios, as pessoas frequentemente perguntavam: “Vocês falam brasileiro?” E eu comecei a me questionar: “Será que falo português de verdade?” Isso me levou a investigar a linguagem, adquirindo livros sobre o tema, como “Latim em pó”, de Caetano Galindo, e a redescobrir um amor pela minha língua que antes não sentia — revela ele, destacando a singularidade da experiência cultural brasileira.
— A música é brasileira, o cinema é brasileiro, a culinária é brasileira, mas, paradoxalmente, a língua é portuguesa. Isso cria uma dissonância. Hoje, ser brasileiro é algo positivo, e sinto que a língua está ganhando destaque nesse contexto.

