O Roubo que Marcou a História da Arte no Brasil
A semana foi marcada pela lembrança de um dos casos de crime mais audaciosos do Brasil, que completa 20 anos. Em 24 de fevereiro de 2006, no auge do Carnaval, o Museu da Chácara do Céu, localizado em Santa Teresa, Rio de Janeiro, foi alvo de uma operação que se destaca não apenas pela audácia, mas também pela ineficiência na resolução do crime. Com o inquérito já prescrito, os envolvidos no roubo podem até confessar suas ações sem medo de punição.
Naquela fatídica sexta-feira de Carnaval, enquanto o famoso bloco das Carmelitas arrastava multidões pela região, quatro homens armados invadiram o museu, renderam seguranças e visitantes, e levaram consigo quatro obras de arte de inestimável valor. Entre elas, estavam “A Dança”, de Pablo Picasso; “O Jardim de Luxemburgo”, de Henri Matisse; “Dois Balcões”, de Salvador Dalí; e “Marinha”, de Claude Monet, além de um livro repleto de gravuras de Picasso.
A obra “Marinha”, de Monet, é uma das peças que ficou marcada pela brutalidade do crime. As ruas, repletas de foliões, dificultaram a chegada das autoridades, que se viram despreparadas para lidar com a situação. A CBN, por sua vez, estava atenta ao ocorrido e registrou cada momento.
Na época, os quadros foram avaliados em cerca de 50 milhões de dólares, valor que, ao câmbio atual, ultrapassa os 260 milhões de reais. Isso torna esse evento não apenas o maior roubo de arte da história do Brasil, mas também um dos dez maiores do mundo, segundo informações do FBI.
As Consequências do Roubo e as Falhas na Investigação
O inquérito sobre o caso ficou sob a responsabilidade da Polícia Federal. No entanto, até hoje, as obras continuam desaparecidas e nenhum dos criminosos foi identificado. A jornalista Cristina Tardáguila dedicou-se ao tema em seu livro “A Arte do Descaso”, lançado em 2016. Em suas páginas, ela destaca as falhas na investigação e reitera que as obras de Matisse e Dalí já haviam sido roubadas e recuperadas em 1989.
“É evidente que houve falhas graves durante as investigações. O inquérito acabou se perdendo em um emaranhado de pedidos de prorrogação, entre a PF e o Ministério Público. A conexão com o crime de 1989 não foi estabelecida, o que poderia ter iluminado o caminho da investigação”, afirmou a jornalista.
As obras que foram roubadas faziam parte da coleção Castro Maya, adquirida pela família de empresários entre os séculos XIX e XX e incorporada ao patrimônio da União nos anos 1980. Para Alessandra Simões, presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte, o roubo de obras tão valiosas representa um imenso prejuízo cultural. “Um país que mantém essas obras em seu acervo é visto como detentor de um patrimônio cultural de relevância universal. Quando uma obra de arte desaparece, uma parte da história também se perde”, comentou Simões.
Os Suspeitos e as Possibilidades de Resolução do Caso
Dois negociadores de arte franceses chegaram a ser considerados suspeitos de terem encomendado o roubo, mas a falta de provas concretas impediu a sua condenação. Um motorista de kombi foi detido após alegar que havia sido rendido pelos criminosos, mas logo foi liberado. O único vestígio que restou do crime foram fragmentos de molduras encontrados queimados dias após o roubo, além de relatos de que um dos quadros teria sofrido danos durante a ação.
Pedro Simões, especialista em direito Penal do escritório Veirano Advogados, comentou sobre a possibilidade de reabertura do caso: “Mesmo com a prescrição, novos crimes podem estar atrelados a este incidente. A aquisição de uma obra roubada configura o crime de receptação, e isso pode levar a outras investigações.” Ele ressaltou que as obras continuam pertencendo ao museu e poderiam ser reintegradas ao acervo se fossem recuperadas.
Procurado para comentar sobre o caso, o Museu Chácara do Céu afirmou que a ausência das obras ainda é sentida e que foram implementados novos protocolos de segurança. A Polícia Federal, por sua vez, mencionou que indiciou o motorista, mas o caso foi arquivado devido à falta de evidências.

