Desafios Políticos e Econômicos no Rio de Janeiro
Há uma década, o Rio de Janeiro vivia um momento de grande expectativa. Às vésperas de sediar os Jogos Olímpicos, o estado, impulsionado por receitas dos royalties do petróleo, prometia se tornar o “maior hub tecnológico da América Latina”. O Cristo Redentor, ícone da cidade, figurava em destaque na capa da revista The Economist, simbolizando essa euforia. Porém, uma década depois, a realidade é bem distinta: o estado enfrenta uma profunda crise econômica, com vastas áreas sob controle do crime organizado. Atualmente, o Rio de Janeiro está sem um governador há quase um mês, e a sensação generalizada entre a população fluminense é de indiferença à situação política.
A resolução da indefinição que se instaurou após a renúncia do governador bolsonarista Cláudio Castro, do PL, deve ser o primeiro passo a ser dado. Neste contexto, o Supremo Tribunal Federal (STF) toma a frente ao discutir a forma como será realizada a eleição para um mandato-tampão no governo estadual até o final do ano: através de escolha direta ou indireta. A renúncia de Castro, a nomeação do vice Thiago Pampolha (MDB) para o Tribunal de Contas do Estado, e a prisão do presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (União Brasil), por supostas ligações com o Comando Vermelho, resultaram em uma tripla vacância. Isso torna necessária a realização de eleições suplementares para escolher um novo ocupante do cargo, que, no momento, está sob a responsabilidade temporária do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Rodrigo Couto.
Expectativas e Alternativas no STF
Até o presente momento, o julgamento no STF aponta para 4 votos a 1 a favor de eleições indiretas, onde os deputados estaduais escolheriam o governador interino. Os ministros Luiz Fux, André Mendonça, Nunes Marques e Cármen Lúcia se posicionaram contrários ao relator, Cristiano Zanin, que defendeu a votação direta. Zanin, contudo, também trouxe à tona a possibilidade de se evitar as eleições suplementares com a manutenção de Couto na liderança do governo até o fim do ano, momento em que ele passaria o cargo diretamente ao governador eleito em outubro.
Embora o placar atual seja desfavorável às eleições diretas, a expectativa de um empate é palpável, pois os ministros Flávio Dino, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, que ainda não votaram, têm se manifestado a favor da escolha direta. A discussão foi suspensa devido a um pedido de vista de Dino, que aguarda a chegada do novo ministro Jorge Messias, que será sabatinado pelo Senado em breve. Enquanto isso, os bastidores políticos estão agitados, especialmente em relação aos dois principais candidatos ao governo estadual: o ex-prefeito Eduardo Paes, do PSD, que conta com o apoio do presidente Lula, e o deputado estadual Douglas Ruas, do PL, alinhado ao senador Flávio Bolsonaro.
A Necessidade de Reformas Estruturais
A avaliação de diversos setores, incluindo o governo federal e parte da sociedade, é de que uma solução política, embora crucial, não será suficiente para retirar o Rio do estado de estagnação. Para muitos, a única maneira de conter a infiltração do crime organizado é impedir a continuidade do grupo que esteve no poder sob a liderança de Castro e Bacellar. Em sua análise, Flávio Dino destacou que o Rio de Janeiro vive uma situação singular no Brasil, onde todos os últimos governadores enfrentaram problemas sérios, como prisão ou renúncia, para evitar a cassação. Ele mencionou a Operação Quinto do Ouro, que resultou na prisão de diversas figuras influentes no estado.
“Nenhuma outra unidade da federação enfrenta a situação do Rio”, enfatizou Dino, que pontuou a gravidade da infiltração do crime na política fluminense. Ao mencionar o caso do presidente da Assembleia, que está detido, ele contou que muitos parlamentares estariam recebendo pagamentos irregulares do jogo do bicho. A Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) respondeu à declaração, afirmando não reconhecer qualquer relação com a contravenção penal. Contudo, essa declaração não parece ter efeito prático.
Propostas para Combater a Infiltração Criminosa
Para uma nova gestão que pretende livrar a administração pública da influência criminosa, há muitos caminhos a serem trilhados. Daniel Cerqueira, especialista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), sugere a criação de uma força-tarefa federal, embora o termo cause certa resistência entre os fluminenses, especialmente após a intervenção militar de 2018, que ficou marcada por arbitrariedades. Cerqueira alerta para os riscos de repetir erros do passado, afirmando que a operação anterior foi uma decisão equivocada e custosa, que não trouxe resultados positivos para a segurança pública.
Entretanto, ele propõe um modelo diferente, inspirado em uma força-tarefa que atuou no Espírito Santo há 24 anos, que combinou a atuação da Polícia Federal e do Ministério Público. A experiência anterior resultou em grandes prisões e permitiu que a governança subsequente iniciasse um processo de saneamento no estado. Para que o tratamento da questão da criminalidade seja efetivo, Cerqueira defende uma abordagem que analise não apenas o aspecto policial, mas também setores financeiros para combater a lavagem de dinheiro.
O Papel da Sociedade e da Política na Transformação
Renato Sérgio de Lima, coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, concorda que a militarização da ajuda federal não é a solução. Para ele, é necessário um esforço coordenado que inclua o enfrentamento da lavagem de dinheiro e a regulação de mercados sensíveis. Ele acredita que soluções efetivas requerem um planejamento articulado. Para a socióloga Julita Lemgruber, a recuperação do Rio de Janeiro por conta própria é uma tarefa inatingível. Ela defende uma articulação que integre investigações das polícias e do MP, essencial para desmantelar conexões entre setores do governo e o crime organizado.
Enquanto o futuro do Rio de Janeiro se desenha, com as incertezas políticas e o julgamento do STF à espreita, o estado se mantém na expectativa de que um novo capítulo, com novos líderes e abordagens, possa oferecer a estrada para a recuperação e a renovação, rompendo com um ciclo de corrupção e violência que se arrasta há anos.

