Decisão do STF sobre a Lei Escola Sem Partido
Em uma votação unânime, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, nesta terça-feira, declarar inconstitucional a lei municipal que instituiu o Programa Escola Sem Partido em Santa Cruz de Monte Castelo, no Paraná. A norma, que vigorava desde dezembro de 2014, impunha diretrizes de neutralidade política, ideológica e religiosa nas escolas municipais, ao mesmo tempo que buscava assegurar o pluralismo de ideias no ambiente educacional.
A ação que resultou no julgamento foi movida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e pela Associação Nacional de Juristas Pelos Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Transgêneros e Intersexuais (Anajudh-LGBTI). As entidades alegaram que a legislação municipal invadia a competência do Congresso Nacional ao estabelecer diretrizes educativas. Além disso, mencionaram a possibilidade de perseguição ideológica aos educadores como um dos principais pontos de contestação.
O relator do caso, ministro Luiz Fux, ressaltou durante o julgamento que a legislação municipal ultrapassou as prerrogativas da União no que diz respeito à educação. Fux argumentou que as leis educacionais existentes no Brasil promovem a formação política dos alunos e incentivam a prática da cidadania. “A neutralidade ideológica ou política pretendida pela norma, ao silenciar a participação social no ensino, é não apenas inconstitucional, mas também incompatível com o nosso ordenamento jurídico”, afirmou o ministro.
Liberdade Acadêmica e Censura
O ministro também defendeu o direito dos professores à liberdade acadêmica, destacando que a lei impunha uma censura inaceitável aos docentes. “Proibir que o professor inclua, em sua disciplina, conteúdos que eventualmente conflitem com as crenças morais, religiosas e ideológicas dos alunos e de seus pais é uma forma de censura prévia”, enfatizou.
O voto de Fux foi acompanhado por outros ministros, incluindo Flávio Dino, Cristiano Zanin, Nunes Marques, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e o presidente do STF, Edson Fachin. Durante a sessão, o ministro Dino acrescentou que a implementação da lei poderia inviabilizar o ensino nas escolas. “Sob a vigência dessa norma, um professor não conseguiria explicar sequer a origem do nome da cidade, Santa Cruz, pois isso implicaria em romper a suposta neutralidade ao ter que discutir questões religiosas vinculadas ao termo ‘cruz'”, comentou.
Reflexões sobre o Medo na Educação
A ministra Cármen Lúcia também se manifestou sobre a gravidade da aprovação da lei, dizendo que “o medo é um dos maiores instrumentos de fragilização de qualquer profissional”. Ela acrescentou que uma norma como essa impõe ao professor um estado permanente de temor ao abordar certos tópicos em sala de aula.
A decisão do STF é um marco importante na discussão sobre a liberdade de expressão e a pluralidade de ideias no ambiente educacional. Com isso, o Supremo se coloca contra legislações que visam cercear a autonomia dos professores e garantir um espaço de debate aberto e respeitoso nas escolas, essenciais para a formação de cidadãos críticos e conscientes.

