Reconhecimento Tardio da Contribuição de Tia Ciata
No dia 5 de março, a escola de samba Paraíso do Tuiuti anunciou que Tia Ciata será o enredo para o Carnaval de 2027. A escolha, embora possa parecer coincidente com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, está profundamente conectada à luta pela igualdade feminina, um tema que ressoa fortemente neste 8 de março e todos os dias do ano. O enredo intitulado “Ciata – A mãe preta do samba” será desenvolvido por Cláudio Russo e Luiz Antônio Simas, sob a direção do carnavalesco Renato Lage, trazendo à luz a trajetória de Hilária Batista de Almeida, nascida em 13 de janeiro de 1854.
Tia Ciata foi uma figura central na história do samba carioca, reconhecida por sua atuação como matriarca e ativista. Nascida em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, ela se mudou para o Rio de Janeiro em 1876, onde se estabeleceu na Praça Onze, conhecida como Pequena África. Esse espaço se transformou em um reduto cultural onde Ciata exerceu seu papel como líder espiritual e musical, unindo sambistas e promovendo a cultura afro-brasileira.
É surpreendente que, após mais de um século desde sua morte em 1924 e quase 100 anos após o primeiro desfile oficial de escolas de samba, a relevância de Ciata em relação ao samba só agora esteja sendo reconhecida de forma oficial. Sua casa em Praça Onze se tornou um ponto de encontro para músicos, especialmente aqueles oriundos de comunidades negras, que buscavam um espaço para se expressar artisticamente. Na época, tocar samba era frequentemente visto com desprezo, sendo associado à vagabundagem, especialmente pela polícia racista que vigiava as atividades culturais da cidade.
A Influência Cultural de Tia Ciata
Além de quituteira e ialorixá filha d’Oxum, Tia Ciata era uma sambista nata, cuja paixão pela música e o ritmo contagiava todos ao seu redor. Em sua casa, além de proporcionar um espaço seguro para os sambistas, ela incentivava a criação e a difusão do samba, alimentando um movimento que apesar de resistências sociais, foi se consolidando ao longo dos anos. A habilidade de Ciata em se envolver nas rodas de samba e sua maestria no partido alto são frequentemente mencionadas por aqueles que tiveram a sorte de participar de seus encontros.
Embora a narrativa histórica tenha frequentemente apregoado os homens como os principais protagonistas do samba, o papel das mulheres, como Tia Ciata, tem sido muitas vezes minimizado ou até apagado. O legado de Hilária Batista de Almeida, por exemplo, é uma prova viva de que, mesmo em uma sociedade predominantemente patriarcal, as mulheres sempre estiveram na linha de frente da luta pela preservação e promoção da cultura samba.
O Futuro do Samba com Tia Ciata no Centro das Atenções
Com o enredo que homenageia Tia Ciata, a Paraíso do Tuiuti não apenas reconhece a importância de sua história, mas também destaca a contribuição das mulheres na construção do samba como conhecemos hoje. Essa decisão marca um passo significativo na valorização da cultura afro-brasileira e na luta por igualdade, especialmente em um momento em que questões de gênero e raça estão em evidência na sociedade.
A escolha de Tia Ciata como tema do desfile é uma celebração não só de sua vida, mas de todas as mulheres que, ao longo da história, lutaram e ainda lutam pela valorização de suas culturas e identidades. Ao trazer à tona a figura de Tia Ciata, o Carnaval de 2027 promete ser um marco na história da folia carioca, celebrando as raízes do samba e sua evolução ao longo das décadas.

