Desafios e Desigualdades no Serviço Público
Março é um mês que traz homenagens e celebrações, mas, no contexto do serviço público, se não houver uma revisão das práticas vigentes, corre o risco de se tornar apenas um protocolo social sem impacto real. Como servidor público e colega de trabalho de muitas mulheres que também atuam na área, sinto a necessidade de abordar um tema que afeta a qualidade do serviço prestado pelo Estado: a pressão desigual enfrentada por elas, que precisa ser discutida com seriedade.
O problema se manifesta não em declarações abertamente machistas, mas na rotina do dia a dia: reuniões marcadas para horários inconvenientes, como no final do expediente; demandas urgentes que parecem testes de lealdade; e uma cultura que espera que as mulheres se responsabilizem por manter a organização e a tranquilidade do ambiente, enquanto também são cobradas por resultados. Em setores como saúde, assistência e fiscalização, essa pressão é intensificada pela exposição a conflitos e riscos, muitas vezes sem o suporte necessário. Assim, a estrutura pública acaba gerando desigualdade ao valorizar a disponibilidade total como mérito e tratar o cuidado como um empecilho.
Três Fatores que Sustentam a Desigualdade
Três engrenagens principais sustentam essa realidade. A primeira delas é a informalidade nas contratações: muitos cargos de confiança e funções são preenchidos através de redes de indicações, com critérios pouco claros e transparência quase inexistente. A segunda se refere à cultura da “sempre disponível”: plantões improvisados, agendas esticadas e mudanças de rumo abruptas penalizam, sobretudo, as mulheres e suas responsabilidades familiares. Por fim, a normalização do constrangimento se torna um problema adicional: a pressão por resultados muitas vezes se transforma em assédio moral e gerenciamento baseado no medo, o que impacta mais aqueles que possuem menos proteção institucional.
Reconhecer que esses problemas são estruturais é um passo crucial para solucioná-los. Algumas medidas práticas podem ser implementadas: estabelecer um protocolo eficiente para denúncias de assédio, com canais de comunicação claros, prazos e proteção contra retaliações; oferecer capacitação para gestores sobre a importância da gestão de pessoas e prevenção de assédios, responsabilizando-os por omissões; e aumentar a transparência na ocupação de cargos através de critérios bem definidos e processos públicos. Além disso, é vital criar regras para o agendamento de reuniões, priorizando horários úteis e permitindo exceções justificadas, juntamente com a possibilidade de participação remota quando viável. Realizar pesquisas periódicas para avaliar o clima organizacional e a segurança no ambiente de trabalho, com planos de ação e acompanhamento, também são medidas necessárias. Quando se estabelece que os resultados não justificam abusos, a cultura começa a mudar.
O Caminho para o Respeito e a Igualdade
Nos anos em que trabalhei, testemunhei colegas brilhantes diminuírem seu ritmo ou até recuarem devido a pressões que nunca me afetaram de maneira tão intensa: a sobrecarga invisível e o julgamento constante. Também vi muitas que conseguiram avançar, mas frequentemente tiveram que trilhar uma estrada mais difícil do que seus colegas homens: provar suas competências repetidamente, sustentar resultados sob constante análise e lutar por espaço em critérios que nem sempre são claros. Reconhecer essa realidade não é colocar a culpa em indivíduos, mas sim exigir um ajuste no sistema.
Março não deve ser apenas um mês de felicitações. É um período que demanda proteção, transparência e respeito como norma. É essencial contar com a disposição dos homens para escutar mais, interromper menos e agir quando o ambiente tende a silenciar uma colega. A mudança precisa acontecer por meio de ações concretas e um compromisso genuíno com a igualdade.
Eduardo Furtado, servidor público da área fiscal do município do Rio de Janeiro, compartilha essa visão com a esperança de que a cultura do serviço público evolua em direção à justiça e ao respeito.

