Congresso Internacional sobre o Primeiro Cinema em Niterói
Entre os dias 8 e 13 de junho de 2026, Niterói será palco do 19º Congresso da Sociedade Internacional de Estudos do Primeiro Cinema (Domitor), o principal encontro acadêmico dedicado à pesquisa e preservação do cinema em seus anos iniciais. Pela primeira vez realizado na América do Sul, o evento gratuito reunirá cerca de cem especialistas, professores, estudantes e pesquisadores de diferentes países, com coordenação do professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Rafael de Luna. A organização fica por conta do Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF (LUPA-UFF), com apoio da Prefeitura de Niterói, por meio da Secretaria Municipal das Culturas.
Julia Pacheco, secretária das Culturas, destaca que “receber um congresso internacional dessa dimensão reafirma a vocação de Niterói para o audiovisual, setor que cresce globalmente e movimenta cultura, inovação, turismo e economia criativa. O evento fortalece a cidade como espaço de circulação internacional, preservação da memória do cinema e valorização do setor audiovisual”.
Domitor e a importância histórica do cinema primitivo
Fundada em 1985, a Domitor é a principal entidade científica mundial dedicada ao estudo do cinema entre o final do século XIX e o início do século XX, antes da consolidação dos longas-metragens e do sistema de estúdios hollywoodianos. O 19º Congresso marca a primeira edição fora da Europa e dos Estados Unidos desde o primeiro encontro da associação, realizado em 1990 no Canadá. Naquela época, o cinema ainda dialogava diretamente com espetáculos como magia, circos e museus científicos.
Rafael de Luna ressalta o significado do congresso para Niterói e para a UFF: “É um orgulho receber o primeiro evento da Domitor no Hemisfério Sul, ampliando a participação de pesquisadores de América Latina, África e Ásia. Teremos tradução simultânea e apresentações em português, evidenciando a vontade de descolonizar os estudos sobre o primeiro cinema.” A programação inclui raridades de diversos países, como filmes brasileiros antigos e “Formosa”, com as mais antigas filmagens de Taiwan, datadas de 1917.
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Programação gratuita e exibições no Theatro Municipal João Caetano e Cine Arte UFF
Além das mesas acadêmicas e oficinas para inscritos, o congresso promoverá sessões abertas ao público no Theatro Municipal João Caetano e no Cine Arte UFF. A abertura oficial será no dia 10 de junho, às 19h30, no Theatro, local histórico que sediou a primeira apresentação do cinematógrafo em Niterói, em 1896.
A noite de abertura contará com a exibição do programa “Primeiro Cinema Amador Brasileiro”, que reúne filmes silenciosos restaurados digitalmente pelo LUPA-UFF. Produzidos entre as décadas de 1920 e 1930, os registros mostram paisagens urbanas, eventos históricos e narrativas poéticas de cineastas amadores. Entre os destaques, imagens raras das consequências de uma ressaca nas praias da Glória e do Flamengo, no Rio de Janeiro, em 1925, com acompanhamento musical ao vivo do músico Taiyo Omura.
Também se apresenta o Duo Kinetica, dos Estados Unidos, formado pela pianista Jiayin Shen e o artista visual Eric Dyer. A dupla realiza performances que combinam improvisação musical e projeções inspiradas em aparelhos pré-cinematográficos do século XIX.
Sessões especiais no Cine Arte UFF e destaque para o cinema silencioso
No Cine Arte UFF, a programação inclui sessões gratuitas de filmes silenciosos acompanhados por música ao vivo, com raridades brasileiras produzidas entre 1909 e 1912, novas restaurações digitais em 4K e obras preservadas em arquivos internacionais. Entre as peças exibidas estão as novas cópias digitais do funeral do Barão do Rio Branco, filmado em 1912, e registros de uma corrida de carros em São Gonçalo, em 1909. Pela primeira vez no Brasil, serão exibidas imagens raras do Rio de Janeiro de 1909 e 1910, preservadas pelo British Film Archive, de Londres.
O congresso também traz uma sessão que aborda as relações entre cinema, colonialismo e exploração de recursos naturais, com filmes que revelam como a linguagem cinematográfica esteve associada a projetos coloniais desde suas origens. Entre as obras exibidas, está a cópia restaurada em 4K de “As Aventuras de Robinson Crusoé”, dirigido por Georges Méliès em 1902, além de um raro filme sobre colonização polonesa no sul do Brasil, preservado pela Cinemateca da Polônia.
O encerramento das sessões abertas terá uma mostra dedicada às comédias do cinema silencioso, com obras restauradas de artistas populares antes da consolidação do cinema americano, como Andre Deed, Mistinguett e Max Linder, um ator muito conhecido no Brasil antes da Primeira Guerra Mundial.

