O Legado de Doca na Música Brasileira
Entre as décadas de 1940 e 1950, Alcides Fernandes, conhecido como Doca, tornou-se um dos grandes mentores de Antonio Carlos Jobim, o gênio da Bossa Nova. Com uma idade superior em cerca de dez anos, Doca residia no morro do Cantagalo, em Ipanema, e foi apresentado a Jobim em um momento decisivo na trajetória do jovem compositor. Tom, então com 21 anos e recém-desligado do curso de Arquitetura, encontrou em Doca não apenas um parceiro musical, mas um verdadeiro embaixador nas rodas de samba da comunidade. O convívio com o sambista foi fundamental para a formação artística de Jobim, que, em 1956, aceitou o convite de Vinicius de Moraes para compor a trilha de ‘Orfeu da Conceição’, uma obra que adaptou mitos gregos ao cotidiano carioca.
Com apenas 95 anos, Silvina Fernandes, a viúva de Alcides, traz à tona memórias ricas e nostálgicas sobre esses tempos. ‘Meu pai já era amigo de Tom’, diz Sílvia, em seu apartamento no Lido, lembrando-se dos encontros no Arpoador, onde os dois saíam para pescar. ‘Preparava peixada para eles e o samba rolava até a madrugada’, acrescenta, destacando a presença constante de Doca nas rodas de samba, tanto na favela quanto fora dela.
Após a morte de Doca em 1962, o convívio com a família Jobim se tornou escasso. No entanto, o filho mais velho de Doca e Sílvia, Sérgio, recorda que perdeu o pai quando tinha apenas 10 anos. ‘O afastamento da minha mãe do meio musical ocorreu após seu segundo casamento’, conta. Entretanto, mesmo com a distância, as memórias de Doca permanecem vivas na família Jobim, como analisa Beth Jobim, que, apesar de ser muito jovem na época, lembra de Sílvia como uma figura forte e carismática.
A Trajetória Musical de Alcides Fernandes
Criado no subúrbio carioca, Alcides Fernandes estudou música e se destacou como ritmista e compositor. Em 1947, junto de Sílvia, ele participou da fundação da escola de samba Império Serrano. O reconhecimento de sua arte chegou no início dos anos 50, quando trabalhou como ritmista ao lado de Bezerra da Silva — também um futuro ícone do samba. Mesmo que a morte de Doca tenha ocorrido no auge da Bossa Nova, sua contribuição para a música brasileira não deve ser subestimada.
Entre suas colaborações com Tom Jobim, destaca-se o samba-canção ‘Solidão’, que, embora nunca tenha saído de cena, foi regravado por diversos artistas como Nora Ney, Dick Farney e Caetano Veloso. Contudo, muitos de seus outros trabalhos, incluindo suas parcerias com Jobim, acabaram esquecidos ao longo do tempo. Sua carreira, que abrangeu tanto marchinhas de carnaval quanto sambas, ainda aguarda uma reavaliação crítica adequada, como sugere Sérgio.
A Amizade e o Impacto de Doca na Carreira de Jobim
Alcides Fernandes não era apenas um amigo; ele foi fundamental para a inserção de Jobim no cenário musical carioca. Em 1951, Doca levou Jobim à Editora Euterpe, onde o compositor pôde garantir sua subsistência além das noites nos bares de Copacabana. A habilidade de Jobim em transitar entre o samba e a música popular foi aprimorada por essa amizade. A conexão de Doca com a cultura do morro carioca e sua vivência nas rodas de samba trouxeram uma autenticidade à obra de Jobim.
Com o passar dos anos, Alcides foi relegado ao esquecimento, mas seu papel como “embaixador do samba” não deve ser esquecido. O reconhecimento de sua importância na formação de Jobim e seu impacto na música popular brasileira é um legado que merece ser celebrado, especialmente quando se aproxima o centenário do compositor, em 2027. A história de Doca é uma janela para os bastidores da Bossa Nova, revelando a profundidade das relações que moldaram a música do Brasil.

