O Mercado de Previsões em Ascensão
As plataformas de previsões, que podem movimentar até US$ 1 trilhão anualmente nos Estados Unidos até 2030, conforme aponta a consultoria Eilers & Krejcik Gaming, estão finalmente fazendo sua entrada no Brasil. Embora a regulação deste setor ainda não esteja clara, grupos financeiros já começam a investir no mercado preditivo, que possui certas semelhanças com as apostas tradicionais, mas busca se diferenciar.
A Polymarkets e a Kalshi, duas das principais plataformas em operação nos Estados Unidos, já disponibilizam uma série de eventos brasileiros para que os usuários possam palpitar. No Brasil, a B3, a XP Investimentos e o banco BTG Pactual deram os primeiros passos nesse novo mercado, com estimativas que apontam para movimentações entre R$ 20 bilhões e R$ 40 bilhões ao ano, de acordo com analistas do Itaú BBA.
O Crescimento do Mercado Preditivo
Desde as eleições presidenciais americanas de 2024, o mercado preditivo tem se expandido rapidamente, misturando o universo das apostas eletrônicas com a especulação financeira. A estrutura desse mercado baseia-se em “contratos de eventos”, que formulam perguntas binárias sobre a probabilidade de um certo fato acontecer ou não. A interação entre investidores, por meio de palpites, determina o preço desses contratos, refletindo a expectativa em torno de cada hipótese.
No contexto americano, esses contratos são classificados como derivativos, ou seja, instrumentos financeiros que se baseiam no valor futuro de um ativo ou mercadoria. A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), o órgão regulador responsável por esse segmento, já havia manifestado restrições a esse tipo de transação, mas em 2020 liberou a operação da Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara, que, por sua vez, se tornou a mais jovem bilionária do mundo sem herança, segundo a Forbes.
Perspectivas para o Brasil
A aceitação crescente das apostas no Brasil torna o país um mercado promissor para plataformas de previsões. De acordo com uma pesquisa do GLOBO, a Polymarkets possui pelo menos 215 contratos que envolvem eventos brasileiros, que vão desde o resultado do “Big Brother Brasil 26” até a eleição presidencial de 2026 e a possível saída de Alexandre de Moraes do STF.
Em março, a XP firmou uma parceria com a Kalshi, disponibilizando contratos relacionados à economia brasileira, que cobrem fatores como inflação e taxas de juros. Esses palpites estarão ao alcance dos clientes da marca Clear que possuem contas de investimento internacional. Por sua vez, a B3 já recebeu a autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para lançar seis contratos associados ao Ibovespa e às cotações de dólar e Bitcoin. Esses novos instrumentos financeiros deverão ser oferecidos aos chamados “investidores profissionais”, com um investimento mínimo de R$ 10 milhões.
Desafios Regulatório e o Futuro
A crescente regulamentação dos mercados preditivos sinaliza uma tendência de amadurecimento desse setor. No entanto, executivos e especialistas alertam que há desafios pela frente. A regulamentação atual é considerada insuficiente, e muitos defendem a necessidade de um marco regulatório específico que possa englobar a natureza singular desses contratos.
Segundo Fernando Carvalho, cofundador da VoxFi, que lançou uma nova plataforma de previsões, a colaboração com órgãos reguladores é essencial para garantir a integridade do mercado. Ele acredita que a regulamentação não deve ser vista como um obstáculo à inovação, mas sim como uma forma de proteger os investidores.
A Comparação com Apostas Tradicionais
Uma das principais questões em discussão é a diferença entre contratos de eventos e apostas tradicionais. Enquanto as apostas funcionam com um modelo de “cota fixa”, onde uma banca assume o risco e define as probabilidades, os contratos de eventos são considerados derivativos, uma vez que o risco é compartilhado entre os participantes do mercado.
A advogada Ana Sofia Monteiro Signorelli, presidente da recém-criada Associação Nacional de Mercado Preditivo (ANMP), argumenta que, apesar da semelhança com apostas, os contratos de eventos são instrumentos financeiros que devem ser supervisionados pela CVM, dada a sua complexidade e o potencial risco de manipulação de mercado.
O Que Vem a Seguir?
As dúvidas sobre a regulamentação dos mercados preditivos no Brasil ainda persistem. Embora a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) mencione que o tema está em pauta, não há empresas oficialmente autorizadas a atuar nesse segmento. As iniciativas existentes buscam evitar polêmicas, focando em lançamentos que envolvam temas econômicos e financeiros, já que envolver esportes poderia atrair a supervisão da SPA e questões judiciais relacionadas às eleições.
O futuro dos mercados preditivos no Brasil dependerá, em grande parte, da resposta regulatória e da adaptação do setor às exigências legais. Enquanto isso, a demanda por previsões econômicas e financeiras não mostra sinais de desaceleração, deixando no ar a expectativa sobre os próximos passos desse mercado inovador.

