Uma Noite de Homenagem e Performatividade
No encerramento do segundo dia da sétima edição do Queremos! Festival, realizado no Rio de Janeiro, a apresentação de Fitti, que interpreta as canções de Ney Matogrosso, encantou o público presente no Teatro Carlos Gomes na noite de domingo, 5 de abril. O artista pernambucano entregou uma performance impecável, honrando a originalidade do cantor sul-mato-grossense que em agosto completa 85 anos.
Fitti, que também é ator, trouxe uma abordagem única ao repertório de Ney, apresentando as 16 faixas do show de forma a destacar sua própria identidade enquanto respeitava a liberdade que sempre permeou a obra de Matogrosso. O espetáculo, concebido em conjunto com Marcus Preto, responsável pela direção artística, ganhou vida a partir do álbum homônimo “Fitti canta Ney”. Com uma sonoridade rica, sob a batuta do baterista Pupillo, a banda contou também com Yuri Queiroga na guitarra, Vinicius Furquim nos teclados e Vic Vilandez no baixo.
Com sons de chuva e trovoadas criando um clima envolvente, Fitti iniciou sua apresentação com “Homem de Neanderthal” (Luiz Carlos Sá, 1975), faixa que marcou o início da carreira solo de Ney. O show ganhou intensidade através de músicas energéticas como “Tem gente com fome” (João Ricardo e Solano Trindade, 1979) e “Flores astrais” (João Ricardo e João Apolinário, 1974).
A interpretação de Fitti foi além da voz, utilizando seu corpo para dar vida ao espetáculo. O artista se destacou no palco, assumindo a figura do “cara meio estranho”, referência ao verso do bolero pop “Bandido corazón” (Rita Lee, 1976), que sinalizou uma mudança de atmosfera no show.
Interações e Momentos Marcantes
Antes de ir em direção a essa nova fase, o cantor ressaltou o caráter político da work song “O patrão nosso de cada dia” (João Ricardo, 1973) em uma apresentação minimalista, com os acordes da guitarra de Yuri Queiroga destacando-se. Fitti, em um bis intencionalmente anticlimático, celebrou o orgulho nordestino ao entoar “Noite severina” (Lula Queiroga e Pedro Luís, 2001), um momento que evidenciou sua essência como intérprete.
A direção sensível de Marcus Preto foi notável ao longo do show, especialmente em momentos como quando Fitti trocou de figurino atrás de um biombo – um elemento que remete a vários espetáculos de Ney. Ao cantar “Mal necessário” (Mauro Kwitko, 1978), Fitti mostrou sua habilidade de misturar gêneros e estruturas sociais, reafirmando sua identidade como artista trans.
A teatralidade da performance atingiu um tom ritualístico durante “Bandolero” (Luhli e Lucina, 1978). Fitti manteve a dinâmica em cena, incentivando a plateia a cantar junto em “Sangue latino” (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1973) e interagindo com os espectadores enquanto entoava o sensual fox “Seu tipo” (Eduardo Dussek e Luiz Carlos Góes, 1979).
Um Repertório Resgatado com Novas Cores
Num momento introspectivo, Fitti apresentou “Viajante” (Thereza Tinoco, 1981) sentado ao centro do palco, elevando a carga lírica da apresentação. A inclusão de “Dívidas de amor” (1986), parceria de Leoni com Ney, trouxe uma nova perspectiva ao brega pernambucano, e o cantor se mostrou também um compositor em rara ocasião.
A música “Dívidas de amor” estava presente em um dos álbuns menos conhecidos de Ney, “Bugre” (1986), que há quatro décadas buscava inovação em uma fórmula desgastada. A apresentação de “Mente, mente” (Robinson Borba, 1986) por Fitti em um clima cabaretesco e a delicadeza com que interpretou “Balada do louco” (Arnaldo Baptista e Rita Lee, 1972) demonstraram sua capacidade de trazer frescor a canções já muito abordadas.
Por fim, no bis, Fitti reinterpretou “Homem com H” (Antonio Barros, 1974) como um artista trans, trazendo nova vida ao tema forrozeiro popularizado pelo trio paraibano Os 3 do Nordeste e regravado por Ney em 1981. O público que assistiu à estreia carioca do show “Fitti canta Ney” não teve dúvidas: ali estava um intérprete que soube respeitar e reinvenções um repertório consolidado, fazendo dele algo verdadeiramente novo.

